O povo é…

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Pedro Prista

professor do ensino superior

Quem? O quê? Resposta alguma virá destas perguntas. E todavia, essa palavra tem deslizado pela história com uma facilidade só comparável à volubilidade do seu sentido. “Quem mais ordena!” – é o que ocorre dizer, com ironia amarga, a quem tenha por aqui vivido os últimos 40 anos. E aos mais novos, nem isso sequer, que o 25 de Abril toca-lhes hoje outras cantigas. Mas o “povo” são eles também e a festa aqui em Odemira, uma tradição proverbial, é cada vez mais uma festa juvenil, festejada entre todas as idades.
Tal como “povo”, também ninguém sabe ao certo o que é ser “jovem”, mas é a partir de incertezas destas que se fazem as tentativas de perceber o mundo. E sem perceber o mundo não somos mais que uma mecânica obtusa a cumprir comandos. Condição aliás que eles, os “jovens”, já não devem estranhar decerto.
Eles, para quem parece não haver hoje nem país nem futuro nele, candidamente convidados a não existir aqui, como se fossem um percalço dos seu passado e por isso, sugeridos à emigração… Eles, que aprenderam até à evidência a pagar todos as utilizações que fizerem do mundo, e a viver numa economia de trocos e pedinchas… Eles, a quem as fantasias cibernéticas trouxeram mais hipnose virtual do que força sobre os seus destinos… Eles têm de se aprender, ou de se descobrir, como “povo”, e a festa é das poucas ocasiões que lhes vão sobrando para o tentar.
A festa cria e transfigura o espaço público urbano e abre-o ao encontro e à comunicação, apesar de esse mesmo espaço estar cada vez mais usurpado pela voz publicitária. A festa confronta os jovens entre si consigo mesmos, apesar do avesso dos encontros que são as cervejas a mais. Mas a festa faz sobretudo coincidir por um tempo limitado e precioso, o espaço comum, o reconhecimento recíproco e a energia de ser colectivamente. É à ressonância disso no espaço público que chamamos “o povo”.
Olhado de viés na história, o “povo” ou os “povos” são o grande protagonista dos últimos dois séculos do mundo, para o bem e para o mal. Em seu nome e às suas mãos se fizeram as maiores barbaridades, mas nele se depositaram também todas as esperanças dos valores humanos. Mesmo incerto, “o povo”, se for eliminado, por esmagamento ou oclusão de si próprio, nada deixará por onde a humanidade se continue. O esmagamento nunca foi definitivo, como se sabe pelo destino das ditaduras e totalitarismos, mas a oclusão de si próprio é coisa muito diferente e tem hoje meios nunca vistos. Os “jovens” que o digam.
Na próxima semana, quando as ruas de Odemira se encherem de gente e de barulho, de luz e de espectáculos, a vila estará a celebrar a vontade de ser de um “povo”, de viver em verdade e com lucidez, de modo sincero e em boa-fé, seguro do seu encontro consigo e com os outros no espaço público e livre, frente a um futuro. Apesar de todos os muitos erros que sempre houve, a única condição em que a humanidade se reconhece humana, ou seja, povo. Seja em cada tempo “o povo” quem for, ou o que for.

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