O deve e o haver da vida

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Vítor Encarnação

Este ano de 2012 é que era o ano de cumprir promessas, de receber as recompensas dos momentos ruins, de alcançar alegrias e grandes feitos. Não iria desperdiçar outro ano, qualquer dia podia ser tarde, pois o destino do tempo é puxar-nos irremediavelmente para a terra.
Não fez nada. Qualquer dia será tarde.
Agora, mais uma vez desperdiçado todo o tempo que a terra gasta para dar uma volta em torno do sol, é novamente réu de si. Tudo o que previu e não concretizou lateja dentro da sua cabeça. São ideias aos gritos. Sonhos a apodrecer na caixa craniana. Desejos ocos. Determinações imóveis.
Agora que passou mais um ano, sabe que ficou tudo por realizar. Adiou tudo todos os dias, enganou todas as tardes, desaproveitou todas as noites. Não encerrou as contas.
E as nuvens foram morrendo, depois rebentou a claridade de mais uma primavera, depois vieram os pássaros felizes, depois secaram as flores, depois o céu cozeu de tanto azul, depois o vento varejou as árvores, depois a chuva caiu, depois vestiu casacos, depois voltou a tremer de frio. Ainda que dissessem que ainda não estava frio, ele já tinha frio. Era o frio todo do mundo a roer-lhe o pensamento.
Sabe que foi mais um ano oco, apenas mais um calendário que o tempo comeu. Fora essa a função do seu tempo. Comer folhas de papel devagarinho, rasgando dias, chorando meses, enterrando outro ano. Sepultando-o dentro de si, ao lado dos outros anos que jazem no cemitério debaixo do cabelo.
Está pois no sítio de onde não saiu. Trezentos e sessenta graus de nada. Todas as luas escusadas, todos os sóis em vão. Não teve braços, nem mãos, nem boca, nem palavras para fazer aquilo que os braços e as mãos e a boca e as palavras fazem. Abraços, carícias, beijos, luz. Ficou a olhar, a sentir vagamente que se fizesse um esforço conseguiria mover um braço e depois outro, e à frente deles iriam as mãos colhendo ternura. Ficou a ver, a pensar que se fosse além dessa dor estática poderia abrir a boca e respirar o oxigénio contido nas palavras de amor.
Mas não. Ficou emocionalmente tetraplégico. Como se ele próprio fosse uma estátua erguida em louvor da sua melancolia de carne e osso.

Esta inércia provoca um cansaço tão grande. Uma tão grande desilusão.
A profecia dos Maias evitaria outra péssima contabilidade existencial para o ano que vem.

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