Lutar até à morte (!?)

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Onofre Varela

jornalista / cartunista

Custódio, jogador de futebol por profissão, e, ao que me parece (confesso-me totalmente analfabeto em desporto), fez parte da equipa de futebol portuguesa que jogou o campeonato de cariz internacional que ultimamente teve forte presença em todos os órgãos de comunicação nacionais, disse (ouvi-o no telejornal das 13 horas, na TVI, no último dia 25 de Junho): “Vamos lutar até à morte para que seja o ano de Portugal” (!!!??).
Já não ouvia o termo “lutar até à morte” desde os épicos (e trágicos) tempos de luta do povo timorense na tentativa de se libertarem da Indonésia que ocupava ilegalmente o território de Timor sob jurisdição portuguesa. É de Xanana Gusmão a recordação que tenho de tais palavras, quando, na clandestinidade, rematava os seus discursos de guerrilheiro com a frase: “Vitória ou morte, mas a vitória será certa”. Frase idêntica às proferidas pelos revoltosos sul-americanos contra as ditaduras dos seus países, na década de 60 do século passado (destacando-se Che Guevara), e dos guerrilheiros africanos, nas matas dos Dembos (Angola) ou de Tete (Moçambique) contra a presença portuguesa.
“Vitória ou morte” (ou “lutar até à morte”) é uma frase própria da luta de guerrilha com teor patriótico, referindo o sacrifício da própria vida (no extremo sacrificial) como último preço a pagar pela justa causa da independência dos seus países, conquistada através de acções armadas contra o invasor ou opressor (habitualmente um ditador repelente e empedernido, que prefere sacrificar a juventude arrebanhada em exército, do que discutir as razões dos independentistas na tentativa do encontro de soluções políticas sem derramamento de sangue).
Mas, neste discurso do profissional de futebol, de nome Custódio, a sua frase é anedótica, inculta e espelha a mesma infeliz atitude que foi incutida na mente da maioria dos adeptos de futebol (autênticos dependentes da droga-bola), manipulados pelo marketing, cujas mensagens beberam até ao fim sem sentirem amargo de boca!
Afinal, o senhor Custódio estava a falar de um simples jogo de futebol e não de uma calamidade produzida por um ditador sobre um povo indefeso!
Trata-se, apenas e só, de um jogo de futebol no calendário de um campeonato, que tem o restrito valor que tem, e, quando terminado, já não vale nada! Simplesmente um jogo de futebol, como podia ser um jogo de cartas, de dominó, de xadrez, ou um torneio de malha. Um jogo lúdico que nada tem a ver com aquilo que pudesse ser rotulado como “o ano de Portugal”!
Porque o ano, o mês, o dia de Portugal, será aquele ano, aquele mês, ou aquele dia, em que os portugueses se sintam escolarmente bem preparados e profissionalmente bem especializados para bem desempenharem as suas funções. Que sejam bem remunerados por isso, e que produzam dignamente e sem absentismo em empresas dirigidas por empreendedores competentes, que não fogem ao pagamento dos impostos, num Portugal governado por gente igualmente competente. Políticos com interesses comuns e não particulares. Governantes que permitam a todos os portugueses uma vida de trabalho e de lazer sem sobressaltos, eliminando a sobrecarga de impostos, construindo e defendendo um autêntico serviço de saúde pública e uma justiça rápida, verdadeiramente justa e eficaz. Um Portugal que proíba ordenados e pensões de miséria para uns e vencimentos milionários para outros. Um Portugal onde o consumo de cultura (livros, teatro, cinema, música, visitas a museus e viagens) esteja ao alcance de qualquer cidadão.
O futebol, na sua dimensão de modalidade desportiva, emparceira com qualquer vertente das práticas de desporto e a sua importância começa e acaba aí. Transformá-lo em droga de consumo exagerado por um povo que usa o jogo da bola para esquecer amarguras e sentir-se forte… não passa de uma fraqueza. É um falso valor, como jóia de pechisbeque.
O valor de um povo não passa por aí. O valor de um povo cresce na sua formação cívica, académica, científica e profissional, e no trabalho que desenvolve com eficácia legitimando a reivindicação dos seus direitos.
Acordem, adeptos! Um povo vale mais do que um campeonato de futebol. O campeonato termina e a vossa (nossa) vida continua. Do campeonato não recebereis mais do que arrelias ou algumas breves alegrias. Depois é como o Carnaval. Morre.
A vida é mais do que isso. E neste momento as nossas vidas estão carentes de resoluções que não passam pelo futebol. Precisamos de decisões políticas que nos sirvam como garante do futuro. Para isso temos de tomar atitudes semelhantes aos guerrilheiros de Timor, dos Dembos e de Tete.
Só então terá significado o grito “Vitória ou morte”…

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Em Destaque

Últimas Notícias

Role para cima