Lourdes Pintassilgo

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Miguel Rego

arqueólogo

Apassagem de mais um Dia Internacional da Mulher trouxe aos ecrãs da RTP2 um excelente documentário sobre uma das mais fascinantes figuras políticas do Portugal do século XX: Maria de Lourdes Pintassilgo. Se a data continua a merecer uma atenção especial dos órgãos de comunicação social, apesar de esquecerem que está ligada ao brutal assassínio de mais de uma centena de mulheres que defendiam trabalhar 10 horas diárias contra as 16 que cumpriam, é de realçar o facto do dito “canal menor da televisão pública” ter trazido esta personagem principal da nossa história contemporânea para um horário nobre. Acima de tudo, é pegando nestes exemplos de coragem e perseverança, como o de Maria de Lourdes Pintassilgo, que se ajuda a criar um mundo diferente, sensibilizando-nos para a urgência de outra atitude cultural e cívica, tanto no masculino como no feminino, para que se entranhe, de facto, na nossa sociedade, uma forma distinta de estar, procurando atingir-se na plenitude a igualdade universal entre homens e mulheres, e não através de manhosices políticas, vestidas de cotas de género. Isto apesar de muito seguramente terem sido bem poucos aqueles que viram este trabalho. Mas voltando a Maria de Lourdes Pintassilgo, não posso deixar de recordar os doces e amargos de boca de estar do seu lado, em 1986, no apoio à sua candidatura à Presidência da República. Recordo-me da sua combatividade, da sua coragem, da sua ingenuidade no discurso político, mas ao mesmo tempo, da sua pureza na maneira de pensar a política e na forma como valorizava o indivíduo na construção do processo universal de desenvolvimento. Levantavam-se algumas dúvidas, como é natural, quando se invocava (recordava) o seu profundo (mas social-libertário…) cristianismo. No entanto, naqueles tempos de aprendizagem, era frequente recordar-me do velho ditado “diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és”. E, neste caso particular, invocar o ódio visceral que alguma igreja e os partidos de “direita” lhe nutriam, eram razão maior para justificar este estar do seu lado. Corremos de bandeira em punho, em campanha, desde Lisboa a Alcácer do Sal. Colámos cartazes, assumimos o papel de delegado à mesa da candidatura às portas de Lisboa. Acompanhámos alguns comícios e, acima de tudo, ouvíamos as suas palavras que nos chegavam pela rádio e pela televisão. Perdida alguma ilusão revolucionária no folclore do pós-25 de Novembro, o apoio a Pintassilgo e a participação activa na campanha era, para mim em particular, uma forma de cortar com os caminhos que me levaram aos “desvios ideológicos” que me cauterizavam e, felizmente (ou não), me têm perseguido. Contudo, foi aí que entendi a diferença entre o “fazer-se política” e o “fazer-se à política” que tão bem caracteriza a maioria dos actores do nosso mesquinho palco da vida. E que, cada vez mais, se impõe. E sem escolher género.

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