A catástrofe

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Maria Fernanda Romba

As imagens entram-nos pela casa dentro, pela alma dentro. E espantam e doem.
A destruição é total. O desespero, tão alarmante, que contagia. Ficamos a olhar atónitos, ainda, vários dias depois da tragédia, como se pudessem vir dizer-nos, de um momento para o outro, que aquilo não aconteceu ou que, tendo acontecido, não teve aquelas dimensões. Que a comunicação social, como (quase) sempre, exagerou. Que não morreram tantos milhares, que os números tantas vezes repetidos, em todos os telejornais e que vão sendo corrigidos, sempre para um número ainda maior, não passam, afinal, de especulação. Querem vender jornais. Querem mortos, feridos, sangue. Ao vivo e em directo. Gostava de poder zangar-me com os homens dos jornais, perguntar-lhes pela ética, pelos escrúpulos, pela cartilha onde aprenderam, não a ler, mas a procurar e defender a verdade, acima de tudo. Queria, mesmo, poder chatear-me com os homens da imprensa. Mas não posso. E não posso porque, infelizmente, eles estão a mostrar-nos a verdadeira dimensão desta tragédia. Uma tragédia que transformou um país e um povo já muito pobre, num povo desgraçado e num país inexistente, onde nada funciona.
Olhamos, o olhar espantado, turvado, e o écran do televisor mostra-nos imagens chocantes. Gente de máscara, enterrando, apressada e atabalhoadamente, em valas comuns, à beira da estrada, outra gente. Gente com nome e agora sem nome. Gente que, apesar de morta, mas porque perdeu a identidade e o direito a exéquias, vai continuar por mais algum tempo, a figurar na lista dos desaparecidos. Dos que continuam a ser procurados pelos seus familiares, na esperança de que aconteça um milagre. Nas valas, o cheiro a carne fétida é nauseabundo, relatam. Mais acima, o que era uma escola com quase cem alunos é agora uma amálgama de destroços. E os alunos que escreviam em cadernos fazem parte desses destroços e confundem-se com eles. Ao fim de vários dias, do meio dos destroços é resgatada uma criança. Da cor dos destroços. Festeja-se, festejamos todos, o milagre e apetece-nos voltar a sentir esperança. Porque não se pode viver sem esperança. Mas a esperança esfuma-se, horas mais tarde, tão ténue como chegou, quando nos contam que a menina não resistiu. E morreu. Já não vai ser advogada. Já não vai cantar no coro da Igreja. Era desenvolta, expedita, dizem-nos. Tinha um laço branco no cabelo – vemos, numa das fotos que sobrou.
Bombardeiam-nos com mais imagens e o que vemos é a devastação, o caos. E sendo o caos, o que é que se pode fazer, pergunto-me, esmagada.
– Nada! – apetece gritar. O sentimento é de impotência. E deve ter sido também isso que sentiu o primeiro-ministro haitiano porque, durante longos e terríveis dias, não teve uma palavra para dirigir a todos os que sobreviveram a tão grande catástrofe e vagueavam, perdidos, famintos e sedentos, pelas ruas do que fora a capital do seu país.
Quando, finalmente, se dirigiu ao que restou do seu povo, disse-lhes que, apesar da catástrofe, não estavam sozinhos. Que o mundo chorava com eles e por eles e que a ajuda chegaria. A todos.
A nós, que continuamos a acompanhar e a ficar esmagados com as dimensões desta tragédia, que tornou ainda mais pobre um povo, já miserável, resta-nos ter esperança nos homens e mulheres de todo o mundo. E acreditar que se nada podemos contra a força bruta e imprevisível da natureza, tudo podemos quando é preciso ajudar outro povo a erguer-se, de novo. Nós, portugueses, que lutámos, irmanados, pela liberdade dos timorenses e de Timor, façamo-lo agora pela sobrevivência dos haitianos e pelo Haiti. Para que renasçam das cinzas.

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