Língua

Quinta-feira, 3 Novembro, 2016

Vítor Encarnação

Estes tempos modernos, em que a comunicação se faz de uma forma demasiado rápida e impulsiva, não permitem a utilização da língua materna com a profundidade e a qualidade desejada.
Os jovens, e também muitos menos jovens, não só abreviam as palavras mas também limitam drasticamente o sentido que essas mesmas palavras podem ter numa conversa, num debate, numa opinião, logo na postura perante a vida. Para muitas pessoas a forma como usam a língua materna é cada vez mais uma impossibilidade de abstração na formação do pensamento. A rapidez dos dedos sobre o écran táctil exige que a mensagem seja simples de forma a não obrigar o cérebro a analisar ideias e informações que ultrapassem conceitos básicos. Ou seja, o que se envia ou se diz deixa de ser efectivamente mensagem, o conjunto das informações transmitidas, para passar a ser meros símbolos que só os seus utilizadores sabem descodificar, limitando assim as suas capacidades de comunicação com os outros emissores e receptores que estejam fora desse circuito.
Na tentativa de acompanhar as rápidas mudanças da vida, julgo que a escola enquanto organização e sistema cedeu demasiado no ensino da língua portuguesa. Promoveu e valorizou a mera intenção de comunicação e desvalorizou o erro. Não só o erro isolado de uma palavra, mas também da construção da frase. Ao deixar de se exigir que se transmita um significado completo e compreensível, as palavras deixam também de estar relacionadas entre si. E esta débil forma vem, por norma, acompanhada de um insuficiente conteúdo.
Na era do digital não se escreve melhor. É óbvio que nenhuma geração pode ter a veleidade de achar que o seu tempo é o melhor, mas ainda assim não corro risco nenhum ao dizer que na era do digital a escrita empobreceu, apenas diz o básico e muitas vezes di-lo mal. Apesar das línguas não serem, nem deverem ser imutáveis, elas têm de ter um conjunto de regras que façam sentido e sejam seguidas e partilhadas pelos seus falantes. Só essa coesão permite o domínio pleno, ou pelo menos suficiente da língua. Por que é que a era digital tem de subverter a essência da língua? Para sermos mais rápidos, mais modernos? Não poderei eu mandar uma mensagem com as palavras todas no sítio? Mas o problema fundamental não é a escrita “digital” em si, no seu contexto próprio, o problema fundamental é a transposição desse tipo de escrita para a escola, para as relações profissionais e institucionais. Nada é pior para a identidade, a liberdade e a cultura, do que um discurso encurtado, do que uma opinião abreviada.

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