Fruto da circunstância

Quinta-feira, 30 Abril, 2015

Vítor Encarnação

Sem prejuízo das características genéticas que trazemos connosco quando nascemos, nós somos sempre, e essencialmente, fruto de uma circunstância. Familiar, social, política, económica, religiosa, cultural. E essa circunstância molda-nos, forma-nos, às vezes deforma-nos. O quotidiano é uma casa onde a nossa existência vive, limitada por regras, costumes e hábitos. O que interessa é ficar bem na fotografia, para pertencer, para não destoar. E essa condição faz-nos, por questões de sobrevivência, assimilar e aplicar, bastas vezes desmesuradamente, esses princípios. E cada um, à medida que vai crescendo e amadurecendo, vai fazendo uso dessa aprendizagem para ganhar o seu lugar no grupo, na comunidade, no país. E por isso, todos nós, uns mais, outros menos, através do raciocínio lógico, descobrimos que para concretizarmos sonhos e ambições e porque o sucesso e a riqueza têm forma de pirâmide, as relações entre pessoas têm de ser relações estratégicas, de confronto, de competição. E sem darmos conta, porque o caminho para o topo é estreito, entramos num ritmo avassalador e deixamo-nos consumir pela voragem dos tempos que correm. É fundamental sermos modernos e termos e mostrarmos. Dinheiro, poder, estatuto, autoridade. Para subir na pirâmide, o intelecto é muitas vezes substituído por uma esperteza egocêntrica, amiúde disfarçada de diálogo e compromisso. Para que tal surta efeito, para manter a forma tradicional da pirâmide e ela não se transforme num quadrado ou num rectângulo, quem sabe até qualquer coisa sem limites geométricos, é preciso que o pensamento e a introspeção morram, é preciso desmantelar o humanismo e as artes. Para contrariar esta devassa, compete-nos então mudar a circunstância de que somos fruto.

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