Faço de conta que esta folha é um céu de papel e eu uma ave pequena, de asas tenras, à procura do mecanismo das palavras e do vento.
Preparo-me à beira da folha como o pássaro se acerca do beiral do telhado: com sintomas de abismo. Os dois, eu e ele, em ensaios de vertigem e destino atiramo-nos. O pássaro todo. Eu apenas o sonho de voar.
O pássaro suplanta o vazio, beija o firmamento com o seu bico amarelo e com o seu corpo alado faz desenhos formidáveis na abóbada celeste. Eu caio logo a pique, quanto muito escrevo um poema na terra, porque sou um Ícaro de papel de jornal.
Mas mesmo assim faço de conta que se conseguir sacudir o pó e as penas que trago nos ossos, for agarrado às costas do silêncio, abraçado à ilusão, então é-me possível voar.
Pode ser que as vogais redondas, as consoantes ternas, os verbos mais quentes, as alegorias e principalmente as metáforas, me emprestem umas asas tontas, um sopro de brisa, para que levante os pés e os olhos do chão e vá pousar no Everest da minha vida.
E faço de conta que munido de asas fortes e impuras me aventuro pelos horizontes longínquos, onde as folhas brancas têm volúpia, ventre e calor. E as canetas pingam água-mel. E faço de conta que de asa a asa tenho uma certeza que me sustenta porque se querem saber, eu sou a vértebra de um sonho, o débil fio que prende um balão cheio de desejo. E ao menos, fazendo de pássaro, fico mais leve.
Voo, vou num movimento de predador e de presa. Eu atrás de mim, eu à procura de mim.
E faço de conta que o mundo anda e que não deixo de sonhar logo assim que abro os olhos. E que os projetos só me seduzem e não me esmagam e desperto com um café e aprendo com o jornal e viajo nos livros e tenho razão naquilo que digo e ensino alguma coisa que se veja e durmo porque já não consigo estar acordado, à espera.
E também faço de conta que o tempo não pesa e não se entranha na pele, nas veias, nas cartilagens, nos cabelos, na vontade. Que o tic tac das horas é somente o eco do coração a bater, inquieto, ali dentro do peito. E que esse mesmo tempo não passa de um relógio que se repete como o restolho ou as flores das amendoeiras. E que é fácil criar um filho.
E faço de conta que não me apercebo que forço o sentido das coisas, conto logo o fim da história, resumo tudo: o pôr do sol, os cravos vermelhos, os bocados de poemas que encontrei à solta na vida. O pior é quando a seiva do meu mundo não lhe serve de alimento, porque se eu já sei comer a luz das tardes de verão com pão de trigo, ele ainda não. Ele ainda só sabe aprender a capa das coisas. E eu, leviano, até parece que lhe consigo ensinar o primeiro voo dos pássaros pequenos. Tudo antes do tempo. Dele, meu e dos pássaros.
E vou fazendo de conta que tem de haver método, estrutura e forma. Voz passiva e contas de dividir. Deitar cedo e cedo erguer.
E faço de conta que os cadernos diários devem estar sempre limpos porque assim é mais fácil encontrar o futuro.

Torneio em Odemira junta seleções femininas sub-14 de andebol
As seleções regionais sub-14 femininas de andebol de Lisboa, Setúbal e Algarve/Baixo Alentejo participam, no sábado, 30, na edição deste ano do Sudoeste Andebol Cup,







