Extracurricular

Quinta-feira, 4 Dezembro, 2014

Vítor Encarnação

Nós bem que o ouvimos professor, mas não é fácil acreditarmos em si. Não que não acreditemos na sua boa vontade, na sua persistência e na sua preocupação. Registamos com agrado o seu labor, a sua tenacidade, a esperança, a teimosia com que mantém acesa essa luz com que nos pretende iluminar o caminho. Ainda que não pareça, ainda que não o mostremos – a juventude não se entrega assim tão facilmente – agradecemos o esforço que faz, um dia após outro, período atrás de período, entre sumários e matéria para os testes, para nos dar palavras e pensamentos, valores e princípios. Sabemos que se inquieta com o nosso presente e o nosso futuro, já lhe passaram outros pelas mãos e você sabe o que lhes aconteceu. Diz-nos que salvo raras excepções, eles e elas são agora adultos e cidadãos da mesma forma que eram alunos. Costuma dizer-nos que a escola é o rascunho da vida. Sentimo-lo triste, às vezes revoltado quando sabe que não fez diferença nenhuma na vida de alguns deles. Mas, para seu próprio bem, aceite que não nos pode salvar a todos. Ninguém nos pode salvar a todos. Você até é um tipo fixe, mas os seus sermões estão a ficar cada vez mais parecidos e mais chatos, deve ser da idade, deve ser do cansaço que se nota no seu rosto e na sua voz. Estamos preocupados consigo. Você ainda não percebeu que está a ficar alineado, perdido. Lembra-se do D. Quixote? Pois é essa triste figura que anda a fazer. Compreendemos que não possa desistir, que não assobie para o lado, esse desassossego está-lhe na massa do sangue. Mas há uma coisa tão óbvia que o professor ainda não percebeu. A realidade desmente-o. Será que não vê televisão e não lê jornais? O mundo cá fora não é isso que você nos ensina. Dê a suas aulas e pronto, nós cá nos havemos de arranjar.

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