Estratégias e enigmas

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

João Espinho

As últimas semanas foram recheadas de acontecimentos que colocam a nu a desorientação e muito do que é, na verdade, o executivo camarário bejense.
Chegámos a um ponto em que já não é possível a moderação nas críticas e em que se torna difícil encontrar os adjectivos adequados, pois a estratégia (se existe) é absurda, ilógica e bastas vezes contraditória.
Saliento tão só três aspectos reveladores:

<b>1º – </b>Desconheço quem tenha sido o criativo que colou ao nome da nossa cidade mais uma vogal, transformando a velha Pax Júlia numa aparentemente pós–moderna <b>BEIJA</b>. Não sei se foi para fazer a evocação do beijo e se o foi, que tipo de beijo se quis evocar. Aquele que identificamos com o amor, a amizade ou, antes pelo contrário, aquele que nos recorda a traição e a hipocrisia? Será que é um beijo na testa, sinal de respeito, ou antes um daqueles que se trocam entre amantes apaixonados?
Mas tudo isto poderia até ser muito apelativo em termos de marketing – vender a imagem de uma cidade onde anda tudo aos beijos e aos abraços, o que seria vender gato por lebre – seria excelente, escrevia eu, não fosse a idiotice de o inovador logótipo nos mandar beijar ovinos ou bovinos, só porque a cidade se encontrava a festejar a Ovibeja. Não se trata aqui de “gostos não se discutem”, pois é a marca de uma cidade que, afinal, poucos beijos tem para oferecer e os que lhe restam são distribuídos em círculo restrito e, invariavelmente, aos afilhados, familiares e amigos desse círculo.
À falta de bom gosto aliou-se agora o equívoco. E o símbolo perdurará como mais uma má chancela deste executivo camarário.

<b>2º – </b>O executivo tem o poder de atribuir as medalhas e insígnias que muito bem lhe apetece e a quem entende dever fazê-lo, assim como dispõe da ferramenta que rejeita qualquer proposta de entregar esses mesmos galardões. Se no primeiro caso somos informados das razões que levam a medalhar esta personalidade ou aquela instituição, já quando se nega essa distinção a argumentação é nula – o silêncio dos inocentes – ou peca por enganosa.
A rejeição de atribuir à Força Aérea Portuguesa a Chave de Honra da Cidade tem contornos ainda não explicados e as razões apontadas não têm fundamento. Da parte dos autarcas do Partido Comunista ficámos a saber, numa primeira fase, que essa distinção só havia sido dada a Presidentes da República. Como deverão ter reconhecido que o argumento cairia por não ter sustentabilidade, recorreram os vereadores comunistas à expressão “não nos pronunciamos sobre o assunto”, numa prática muito habitual quando não se sabe o que se há-de dizer ou não se quer dizer aquilo que se pensa. Certamente que o facto de a proposta ter sido apresentada pelo PSD – a única força que faz oposição – pesou na decisão. Assim como terá pesado o facto de os executivos gostarem de agraciar os seus mais próximos, da região ou da cor, salpicando aqui e acolá com alguns divergentes para dar a impressão de independência. Não terá sido sempre assim, mas foram bastas as vezes que foi isso que se percebeu.
A proposta feita pelo PSD em Assembleia Municipal, que foi reprovada também pelos vereadores do Partido Socialista, tinha como único objectivo testemunhar simbolicamente àquele ramo das Forças Armadas Portuguesas como a cidade abria as suas portas e agradecia à FAP o facto de esta ter escolhido a nossa cidade para aqui comemorar o seu 55º Aniversário. Comemorações estas que levarão o nome da cidade a todos os meios de comunicação social – nacional e internacional – e que trarão até nós largas dezenas de milhar de forasteiros. O PCP, a que se aliou a vereação socialista, assim não o entendeu. As razões? São um enigma que, espero, em breve seja resolvido.

<b>3º – </b>O caso conhecido como “a chacina do canil municipal de Beja” deveria encher de vergonha quem autoriza que se abatam animais sem cuidar que aos mesmos seja poupado maior sofrimento do que aqueles a que já estão sujeitos. A resposta da Câmara Municipal de Beja aos protestos que foram surgindo por parte de Associações de Defesa dos Direitos dos Animais, a que se juntaram muitos blogues, transferindo a suposta culpa para uma veterinária municipal, mostra bem o perfil de quem não sabe lidar com as adversidades. Não basta ao Presidente da Câmara vir dizer-nos que desconhece como se devem abater os animais que estão no Canil Municipal e é muito fácil atribuir aos jornais e às rádios – desta vez esqueceu-se dos blogues – a responsabilidade da chacina que se verificou em Março passado. Cabe a um presidente da Câmara – e o de Beja tem responsabilidades acrescidas por ter chamado a si a maior parte dos pelouros – fazer-se rodear de gente tecnicamente competente e que em todas as ocasiões disponibilizem um aconselhamento que permita ao responsável máximo pela autarquia poder responder pelos seus serviços. Mas quando nos rodeamos não pelos competentes mas pelos que promovemos por outras razões, o resultado não pode ser bom.
E os últimos dias são disso prova.
Os três casos que apresentei não são irreversíveis.
O logótipo <b>Beija </b>pode vir a ficar esquecido numa gaveta da gráfica, a FAP pode vir a ser honrada com a Chave de Ouro da cidade e as práticas no canil municipal certamente que irão conhecer outro rumo.
Para tal basta que haja bom senso.
Cá estamos para ver.

<p align=’right’><b><i>(crónica igualmente publicada em
<a href=´http://www.pracadarepublicaembeja.net´ target=´_blank´ class=´texto´>http://www.pracadarepublicaembeja.net</a> )</i></b></p>

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