Em cima da terra

Pedro Prista

professor do ensino superior

O pretexto foi um encontro promovido pelo MINOM – Movimento Internacional para uma Nova Museologia para construir “um grupo de reflexão sobre a oralidade na perspectiva da sócio-museologia”.
Ao invés do que estas palavras desprevenidamente possam sugerir, o tema, e as problemáticas que ele envolve, tem os mais profundos e largos antecedentes científicos e os mais vivos motivos de actualidade, pelo que a iniciativa conseguiu depressa mobilizar um conjunto significativo de participantes no verdadeiro sentido da expressão.
Apesar do valioso objectivo do encontro e dos seus resultados, é contudo um outro facto que quero aqui destacar: o lugar onde ele ocorreu, o Museu da Ruralidade em Entradas – Castro Verde. A conjugação do tema com o local não é fortuita, mas acresceu para mim ao interesse do encontro o pretexto que me proporcionou para conhecer este museu de que já muito ouvira falar e que a vários títulos me intrigava.
Intrigava-me pelo local, pelo tema e pelo momento. Entradas, não desmerecendo, parecia-me remota, o tema exausto e o momento dramaticamente anacrónico. Por todo o país, tal como também lá fora, os numerosos museus rurais ou os seus similares declinam na sua própria repetição e na dificuldade em servir à leitura do presente pelas novas gerações. Abrir agora mais um neste lugar?
Ora foi justamente o contrário que aconteceu. O Museu da Ruralidade não “abriu”, desencadeou-se; não é “mais um”, é aquele que só ali pode produzir os sentidos que faz; e acontece “agora”, não por memorialismo nostálgico mas no momento em que todos os significados da palavra “terra” a colocam no centro do futuro.
Activado decerto por um notável conjunto de programas que o põem em articulação constante com populações e visitantes; mobilizando os objectos para chamar ao protagonismo as pessoas, as suas vozes e o seu trabalho; instalado num belo e sóbrio edifício que não pretendeu sobrepor-se ao seu programa de arquitectura, este Museu é o avesso dos solenes e inertes obituários do rural que ganham pó e problemas em tantos lugares bem intencionados.
Entretanto o encontro do MINOM aconteceu ali, enquanto no Rio se arrastava a “Cimeira da Terra”. Da Terra cujos solos aráveis não param de ser destruídos ou arrematados; cujas plantas servem ao fabuloso negocio da fome; cuja água potável vai sendo posta a correr só para donos. No esquálido documento final desta cimeira adivinha-se a mão das grandes entidades que determinam o mundo global: as das energias, fósseis ou não, as da genética, dos alimentos e da farmácia, as das tomadas de posições-chave no planeta, todas com a sua “conversa” encantatória, cheia do “global”.
Mas a Terra também é a terra e começa aí. Para os humanos que cá vivem, ela é menos o global que o lugar que lhes diz respeito e onde entre si criam a vida e o futuro. A terra do seu território, da sua paisagem, de onde fazem crescer o que comem e dão a comer. A terra onde estão, literalmente, em cima. Tal como está, com eles, este Museu.

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