Em cima da terra

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Pedro Prista

professor do ensino superior

O pretexto foi um encontro promovido pelo MINOM – Movimento Internacional para uma Nova Museologia para construir “um grupo de reflexão sobre a oralidade na perspectiva da sócio-museologia”.
Ao invés do que estas palavras desprevenidamente possam sugerir, o tema, e as problemáticas que ele envolve, tem os mais profundos e largos antecedentes científicos e os mais vivos motivos de actualidade, pelo que a iniciativa conseguiu depressa mobilizar um conjunto significativo de participantes no verdadeiro sentido da expressão.
Apesar do valioso objectivo do encontro e dos seus resultados, é contudo um outro facto que quero aqui destacar: o lugar onde ele ocorreu, o Museu da Ruralidade em Entradas – Castro Verde. A conjugação do tema com o local não é fortuita, mas acresceu para mim ao interesse do encontro o pretexto que me proporcionou para conhecer este museu de que já muito ouvira falar e que a vários títulos me intrigava.
Intrigava-me pelo local, pelo tema e pelo momento. Entradas, não desmerecendo, parecia-me remota, o tema exausto e o momento dramaticamente anacrónico. Por todo o país, tal como também lá fora, os numerosos museus rurais ou os seus similares declinam na sua própria repetição e na dificuldade em servir à leitura do presente pelas novas gerações. Abrir agora mais um neste lugar?
Ora foi justamente o contrário que aconteceu. O Museu da Ruralidade não “abriu”, desencadeou-se; não é “mais um”, é aquele que só ali pode produzir os sentidos que faz; e acontece “agora”, não por memorialismo nostálgico mas no momento em que todos os significados da palavra “terra” a colocam no centro do futuro.
Activado decerto por um notável conjunto de programas que o põem em articulação constante com populações e visitantes; mobilizando os objectos para chamar ao protagonismo as pessoas, as suas vozes e o seu trabalho; instalado num belo e sóbrio edifício que não pretendeu sobrepor-se ao seu programa de arquitectura, este Museu é o avesso dos solenes e inertes obituários do rural que ganham pó e problemas em tantos lugares bem intencionados.
Entretanto o encontro do MINOM aconteceu ali, enquanto no Rio se arrastava a “Cimeira da Terra”. Da Terra cujos solos aráveis não param de ser destruídos ou arrematados; cujas plantas servem ao fabuloso negocio da fome; cuja água potável vai sendo posta a correr só para donos. No esquálido documento final desta cimeira adivinha-se a mão das grandes entidades que determinam o mundo global: as das energias, fósseis ou não, as da genética, dos alimentos e da farmácia, as das tomadas de posições-chave no planeta, todas com a sua “conversa” encantatória, cheia do “global”.
Mas a Terra também é a terra e começa aí. Para os humanos que cá vivem, ela é menos o global que o lugar que lhes diz respeito e onde entre si criam a vida e o futuro. A terra do seu território, da sua paisagem, de onde fazem crescer o que comem e dão a comer. A terra onde estão, literalmente, em cima. Tal como está, com eles, este Museu.

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Em Destaque

Últimas Notícias

Role para cima