Eleições

Quinta-feira, 26 Setembro, 2019

Vítor Encarnação

Tendo crescido já em democracia, cedo conclui que a participação cívica, principalmente o direito ao voto, é algo de fundamental e incontornável.
Por oposição a uma ditadura, as eleições, enquanto escolha livre e consciente, constituem o padrão de uma sociedade justa e democrática. Não desperdicei as lições da História e aprendi a ler a vida e por isso desde que comecei a exercer o meu direito de voto nunca faltei a qualquer eleição, fosse de que âmbito fosse. Votar tornou-se ao mesmo tempo um credo e uma razão.
Levo agora três décadas e meia desta mania, deste feitio teimoso de acreditar que a minha opinião conta. Sempre acusei a abstenção, sempre a achei um desperdício, uma afronta e uma ofensa à própria liberdade.
Nunca estive percentualmente ausente das decisões. Perdendo ou ganhando, fiquei sempre com uma sensação de dever cumprido.
Completo agora três décadas e meia enquanto membro activo desta causa e deste acto de cidadania. Apesar de uma fugaz e traumática passagem pela vida partidária, sempre tive um respeito imenso pela política e por muitos dos seus actores.
Mas por tanto tempo ter passado por mim e eu tanto tempo ter passado pela vida, já não olho para a política com a mesma cortesia e a mesma reverência de outros tempos. A Polis, a antiga organização social constituída por cidadãos livres que discutiam e elaboravam as leis para o bem comum de todas as pessoas, a base do nosso sistema democrático, tem vindo, nos tempos que correm, a perder um pouco do seu encanto.
Se a pessoa pensar nos exemplos de má conduta, de nepotismo, de corrupção, de favorecimento e de ilegalidades que, de um modo geral, ficam impunes, se um indivíduo analisar com algum grau de seriedade os milagres que todos os partidos agora propõem fazer, se cada ente se dedicar a ouvir a retórica eleitoral e a ler os programas absurdos, inexequíveis e atentatórios da inteligência dos cidadãos, se cada criatura reparar na forma irracional e clubista que os partidos políticos adoptam nestas alturas de efervescência partidária, se cada alma pensar nos abraços e nas tanganhadas que leva nestes dias de campanha, então a sua condição de eleitor fica naturalmente afectada.
É pois natural que o cidadão perca as certezas relativamente à intrínseca dignidade da política, duvide que o palavreado tenha alguma coisa a ver com os princípios e os valores da democracia, conclua que as mentiras, as esponjas que tentam apagar as memórias, as mãos que lavam as outras e os discursos desligados da realidade, não contribuem para o fortalecimento do respeito e da confiança.
A soma destas situações conduz naturalmente à abstenção. Às vezes, é isso que me apetece fazer. Abster-me, ficar em casa, virar as costas, protestar. Mas depois penso melhor e concluo que apesar de tudo não conheço nada melhor do que a democracia. Pelo que conheço dela, coisa nobre e digna, sei que ela não gostará de alguns dos filhos que criou.
No próximo dia seis, irei mais uma vez fazer uma cruz, esperando que um dia ela não se torne demasiado pesada.
É que a idade não aguenta o peso das desilusões e das descrenças.

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