Distinção ou peneira?

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

João Espinho

O presente de Natal chegou ao edifício dos Paços do Concelho já no novo ano, em forma de tabela publicada num semanário de referência e mereceu, por parte dos agraciados, um efusivo comunicado onde se revela o orgulho e a vaidade de habitarmos na “9ª melhor cidade portuguesa para viver”. Sim, estamos a falar da cidade de Beja que, num estudo publicado na revista “Única” (“Expresso”, 6/1/2007), é avaliada e comparada com outras 39 cidades portuguesas (continente e ilhas).
Os 20 critérios que guindaram Beja para uma invejável posição no <i>ranking </i>nacional, que vão desde as acessibilidades à qualidade dos serviços públicos, passando pela oferta cultural, comércio, segurança e alojamento turístico, entre outros, colocaram Lisboa em 1º lugar, logo seguida de Guimarães e – espantem-se – colocam Évora (sim, a vizinha de Beja), num mui digno 3º lugar. Sem querer apreciar estes critérios e as pontuações atribuídas, sou tentado a dizer que as classificações obtidas fazem das cidades portuguesas locais pouco recomendáveis para viver, pois numa escala de 20, a cidade capital não vai além de um Suficiente, com os seus 13,05 pontos, ficando Beja com 11,55, o que lhe dispensa uma ida à oral.
Certamente que este<i> ranking </i>dará pano para mangas e nos blogues locais – de Norte a Sul do país – já se assiste a acaloradas discussões sobre quem é melhor e quem é pior, quem é que está no bom caminho ou, pelo contrário, anda por maus caminhos.
Mas, dizia eu, este presente que o “Expresso” ofereceu e a edilidade bejense tão carinhosamente agradeceu pode ser um daqueles presentinhos envenenados, se não houver modéstia e parcimónia ao desembrulhá-lo e, muito principalmente, alguma humildade nos festejos.
Não duvido que Beja tenha boas condições para se viver. Também não terei dúvidas que as potencialidades da região poderão impulsionar a vontade e o desejo de aqui se querer viver. Cada vez mais as pessoas percebem que não é nos grandes centros urbanos que há qualidade de vida e que o futuro reside nas cidades de média dimensão.
Porém, a cidade de Beja, mercê das políticas que agora a autarquia tanto se regozija de ver elogiadas no referido <i>ranking</i>, não é uma cidade virada para o futuro e as estratégias adoptadas não vão no sentido de estancar a saída de pessoas e serviços.
Já aqui o escrevi e não me cansarei de repetir: a nossa cidade não tem sabido exportar as suas qualidades, tem sido incapaz de potenciar para o exterior o que por aqui se vai fazendo, numa palavra, <b>Beja está fechada em si mesma</b>. Assim, não será difícil de afirmar que a sinalética é suficiente, que vamos sendo uma cidade segura e que os espaços públicos têm qualidade. Quantos menos formos os utilizadores desta terra, menos ela se degradará.
As cidades de média dimensão – e Beja terá que perceber que, se não inverter o actual rumo, a médio prazo perderá vários estatutos – têm que apostar numa estratégia de inovação, têm que ser economicamente competitivas e empenhar-se na diversificação das suas ofertas.
Uma estratégia adequada – e Beja tem estado longe de a adoptar – seria a de cativar empresas na área do conhecimento e das (novas) tecnologias, desenvolver políticas que dessem prioridade à inovação, seria transformar o tecido económico tornando-o competitivo e que, somados ao desenvolvimento cultural, à qualidade de vida e a um ambiente despoluído, tornariam a nossa cidade e a região num território desenvolvido e com futuro.
Mas, como se pode entender pelos foguetes jubilares lançados pela autarquia após a publicação deste ranking, é preferível enaltecer com festejos do que encarar com determinação e sem receios os tempos que se avizinham.
Não quero deixar de manifestar a minha estranheza por, no comunicado publicado no site da Câmara Municipal de Beja se referir que “<i>a cidade de Beja (…) <b>detém uma invejável posição </b>nas categorias da fluidez do tráfego, sinalética e <b>oferta cultural</b></i>”
Ora, para uma cidade que há cerca de dois anos inaugurou a maior sala de espectáculos do Sul do país e em que a autarquia é detentora da quase totalidade dos equipamentos culturais do concelho, obter 50 pontos numa escala de 100, ficando por isso a meio da tabela, demonstra pouca ambição ou, se quiserem, é mais uma das formas de fazer propaganda, tentando iludir meia dúzia de incautos.
Espera-se, pois, que esta prenda que o “Expresso” colocou no sapatinho dos autarcas da Praça da República não se venha a transformar na peneira com que nos querem tapar o Sol.

<p align=’right’><b><i>(crónica igualmente publicada em
<a href=´http://www.pracadarepublicaembeja.net´ target=´_blank´ class=´texto´>http://www.pracadarepublicaembeja.net</a> )</i></b></p>

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