Desencantos

Quinta-feira, 6 Outubro, 2016

Vítor Encarnação

Os desencantos provocam silêncios nas pessoas. Silêncios e ausências. É certo que o mal também pode estar nelas próprias, nos seus ensimesmamentos, nas suas melancolias, nas suas dúvidas. É verdade que pode. É verdade que o cansaço pode vir de dentro, pode ser fruto de uma incapacidade em lidar com uma realidade normalmente mais forte do que o indivíduo, pode advir de uma incapacidade inata em enfrentar situações de vida em comunidade, pode resultar da inépcia em se mover nos enredos dos interesses. Tudo isto é possível, os manuais de psicologia estão cheios destas coisas. Na vida, vasculhados os exemplos, quem fica sozinho raramente tem razão.
A verdade é que os desencantos fecham as pessoas, roubam-lhe as palavras mais corajosas, tiram-lhes o ânimo e a motivação, arrumam-nas a um canto. Os desencantos calam-nas, quanto muito dão-lhes uma folha de papel como esta e um amigo ou dois para desabafar.
Não é fácil o desencanto. Em si mesmo ele não é uma escolha, quanto muito a forma de lidar com ele o será. O desencanto é uma espécie de morte um pouco menos definitiva, por onde tem a pessoa andado que nunca mais se viu, está zangado com a gente, quem é que lhe fez mal, tem a mania que é esperto, julga-se mais importante.
Mas, defendendo pelo menos a possibilidade teórica de um solitário ter razão, não acha o leitor que por vezes a realidade comunitária, política, associativa, cultural, educativa está tão cheia de falhas, imperfeições e vícios, que, após a necessária participação cívica e após o óbvio período de crítica construtiva, não nos resta mais do que abanar a cabeça e metermo-nos em casa? Não acha o leitor que por vezes, lida a realidade que nos circunda, avaliadas as pessoas que querem definir o nosso futuro e a confiança e a credibilidade que delas emanam, até um homem de diálogos, pontes e consensos, se pode tornar um solitário?
Quantos vemos nós que já não são o que eram? Quantos vemos nós que dizem que já não serão o que foram? Quantos vemos nós que infelizmente ainda são o que sempre foram? Quantos se acham ser o que os outros não acham que eles são? Quantos se acham o máximo quando deles se acha o mínimo? Quantos são os que deviam achar mas não acham nada e são outros que acham por eles? Quantos dependem do que os outros acham deles? Quantos não acham nada até que outros lhes digam o que devem eles achar?
Perante o cinismo, a altivez, a incompetência e a hipocrisia, é preciso dizer que antes a solidão que tal sorte.

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