Casa onde não há pão…

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Maria Fernanda Romba

Nos últimos dias assistimos, preocupados, a notícias que, não sendo, totalmente, inesperadas, mantínhamos, apesar disso, a secreta esperança de que não tivessem que ser tão devastadoras ou seja, que não fosse preciso chegar tão longe. Na verdade, as medidas previstas e anunciadas para o próximo Orçamento de Estado vão penalizar, grandemente, os rendimentos da generalidade dos portugueses e, porque toca a todos, as críticas dos mais diversos sectores não se fizeram esperar.
As primeiras a ser anunciadas partiram das duas centrais sindicais que já não se mostravam de acordo desde há muito tempo. Depois, ou quase em simultâneo, foi toda a classe política, em coro, a clamar contra os danos provocados pelo Orçamento, com figuras destacadas a vir a terreiro antever as consequências, para a nossa economia, decorrentes da sua aplicação. De autarcas a cidadãos anónimos, muitas foram as críticas expressas apontando o dedo às medidas que, dizem, longe de resolver os problemas que afectam a economia, antes a agravam porque não geram riqueza, contribuindo para o aumento do desemprego. Contudo, e apesar disso, economistas, banqueiros, Presidente da República, presidente da União Europeia e figuras proeminentes da nossa vida política, económica e social continuam a reafirmar a inevitabilidade da aprovação dum Orçamento e a necessidade de PS e PSD se colocarem de acordo. Sob pena das coisas ficarem muito piores, já que, como referiu Mário Soares, o Orçamento é decisivo para que não nos cortem o crédito.
A situação é de tal modo crítica que, apesar das diatribes políticas, os dois maiores partidos viram-se obrigados a sentar-se à mesa das negociações para discutirem o orçamento e a opinião generalizada é de que deveriam chegar a um entendimento. Em nome da responsabilidade e em nome dos superiores interesses do país.
A (quase) unanimidade quanto ao facto deste ser um orçamento necessário mas um mau orçamento, baseia-se, desde logo, nos cortes salariais previstos para a função pública que contribuirão para a diminuição da receita do IRS, com reflexos, ainda, na economia por via da diminuição do consumo. Por outro lado, os professores com vínculo precário, que esperavam o já antes anunciado concurso extraordinário para verem estabilizada a sua situação laboral, ouviram a ministra anunciar que a situação em que o país se encontra, obrigou à suspensão do procedimento.
As famílias preocupam-se com o anunciado aumento do IVA sobre alguns produtos alimentares a que, embora não essenciais, estavam habituadas, e é com apreensão que vêem, também, o abono de família sofrer cortes nalguns escalões.
Ligamos a televisão e continuamos a ouvir queixas. Os que há pouco tempo atrás clamavam contra os bancos que não concediam empréstimos no valor total dos investimentos, prejudicando os que mais precisavam de ajuda financeira, são os mesmos que agora se insurgem contra aquelas instituições, acusando-as de não terem sido suficientemente exigentes e criteriosas na concessão dos créditos, criando graves problemas de insolvência às famílias de baixos recursos que não têm, agora, meios para pagar os encargos assumidos.
Começamos a ficar baralhados, fazemos zapping e deparamo-nos com reportagens sobre os efeitos das medidas anunciadas. Não já sobre os mais pobres e excluídos da nossa sociedade como era costume, mas agora sobre os outros. Os da classe média ou classe média alta. E as queixas vão dos juízes a quem foi retirado o subsídio de renda de casa, a um professor universitário com três filhos que fazia contas à vida e referia, em concreto, as despesas onde seria obrigado a cortar para não afectar a educação dos filhos.
O país vive uma situação crítica e os portugueses começam, finalmente, a perceber que têm que mudar hábitos de vida e começar a poupar. Mas admitem-no não como uma comum e correcta atitude de gestão da economia familiar mas como uma medida de coacção a que o Governo os tivesse, agora, obrigado.
O problema que vivemos tem várias origens. E vários responsáveis. Mas depende também, ou se calhar, sobretudo, dos nossos comportamentos. Da nossa consciência cívica. Da nossa solidariedade perante problemas comuns ou da falta dela. Neste período difícil que vivemos é preciso escolher que caminho queremos seguir. Temos o direito à indignação e podemos insurgir-nos contra aquilo com que não concordamos. Mas temos também o dever de ser responsáveis e, conscientes das dificuldades que o país atravessa, arregaçar as mangas e acreditar que teremos a capacidade para nos erguer e ultrapassar mais esta crise.
Queixarmo-nos, apenas, de nada servirá, infelizmente. Até porque casa onde não há pão…

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