Aborrecimento

Vitor Encarnação

Escritor

Ele já não é o mesmo menino que está na moldura da sala de estar. Aquela fotografia pendurada na parede é apenas o passado a sorrir. Mas agora o retrato perdeu o modelo, a forma e o conteúdo. Se ele pudesse tirava-lhe, ao menos, o ar de concordância e mansidão que um filho adolescente que se preze nunca deve ter.
Odeia aquele penteado de risco ao lado, aquela camisa abotoada até acima, os suspensórios de elástico, a gravata de mola, os dois dentes que lhe faltam e lhe tornam o sorriso ainda mais patético. Imagina o fotógrafo a compor-lhe a camisa, o penteado e a pose. Ordenando-lhe que estivesse quieto. Mandando-o estar calado e apenas sorrir. Sorrir muito, porque numa fotografia um sorriso perdura para sempre. Odeia o fotógrafo porque ele lhe eternizou o sorriso.
A fotografia é uma acusação contra ele, uma prova irrefutável da servidão e da vassalagem que durante anos prestou aos pais e à restante família. Em 2026 é impensável ser-se muito feliz. O corpo já há muito que partiu o vidro da moldura. E quando essa pele transparente que guardava a harmonia se estilhaçou, soltaram-se os medos, rebentaram as certezas. Montaram-se as encruzilhadas. Como armadilhas. E não há pai nem mãe que lhe possa valer.
Aliás, quem pediu para nascer? Quem quis a dor que a existência dá aos dezasseis anos? Quem chamou a mágoa das paixões impossíveis? Quem convocou o destino de não haver amanhã?
Mudou o quarto. Pintou-o em tons de cinzento e perfumou-o de incenso. Expulsou os peluches, os livros e os carros de brincar. Encostou a cama à parede. Precisa de espaço para pensar. Fechou a janela. Precisa de respirar. Apagou a luz. Precisa de luz. Esconde-se lá dentro, nele, no quarto. Sente que é gelo e fogo ao mesmo tempo. Deita-se na cama e pendura os olhos no deserto do teto. Ouve música, aumenta o volume e o som violento da banda arranha o pai, a mãe, a fotografia da sala, a casa toda.
De um momento para o outro (parece que é sempre de um momento para o outro), tornou-se o epicentro de um tumulto que faz tremer os alicerces do lar. Os pais nem querem ver. Coitados, custa muito o caminho da insurreição. Principalmente vindo de um filho a quem nunca faltou nada. E lá em casa não lhe falta nada. Malandras são as companhias. E os vizinhos que se metem onde não são chamados. Que o rico menino deles é o da fotografia da sala. Se Deus quiser isto logo lhe passa, é melhor não nos metermos nisso. São coisas da idade. Oferece-se uma coisa de que ele goste muito e pronto.
Mas o mundo todo aborrece-o. Principalmente os presentes dos adultos. Não têm assunto. Só o papel e o laço que os cobrem é que são coloridos. O resto é lasso e pardo.
E a escola é um caderno que se dobra e se põe no bolso de trás.

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