A morte das aldeias

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Paulo Pisco

Membro da Assembleia Municipal de Serpa

As casas vão ficando desabitadas e as aldeias vão-se esvaziando. As crianças são cada vez menos e os poucos velhotes passam vagarosamente a caminho da sociedade para beber o seu copito. Por falta de clientes, as lojas vão fechando. O silêncio é cada vez maior nas vastas planícies douradas. Todo o Alentejo tem uma tarefa imensa em mãos, que tem a ver com a esperança e com o futuro a que todos temos direito. Por ser uma tarefa tão difícil e demorar tanto tempo a dar resultados, não significa que baixemos os braços. Pelo contrário, temos uma obrigação acrescida de fazer colectivamente um combate prioritário e sem tréguas à desertificação e ao envelhecimento demográfico.
Há dias, à volta de umas fatias de presunto com amigos em Vila Verde de Ficalho, o Chico Lagarto dizia, em tom de fatalidade: “Daqui a 15 ou 20 anos não há ninguém aqui na aldeia. Todos os anos morrem 40 ou 50 velhotes e com muita sorte nascem três ou quatro crianças. Já ninguém quer aqui ficar. Para quê se não há nada para fazer?” Esta ideia é confirmada pelo Guanita, um homem muito estimado em Ficalho: “Já tive dias de ir a três funerais”, afirma.
É nestas descrições simples e ao mesmo tempo deprimentes que se percebe toda a dimensão dramática de uma situação que não devia deixar ninguém indiferente. E não se pode deixar passar muito tempo para agir, porque à medida que os anos vão passando torna-se mais difícil repovoar a região. É preciso, com urgência, pôr todos os responsáveis políticos e institucionais a pensar formas de contrariar a desertificação acelerada das freguesias.
Para atingir estes objectivos, os eleitos nas câmaras, assembleias municipais e de freguesia podem dar um contributo determinante. Basta que abandonem os seus cálculos políticos de curto prazo a pensar em eleições e desenvolvam iniciativas transmunicipais, cooperando sem olhar a cores políticas. É claro que para isto resultar os autarcas têm de ganhar uma consciência aguda deste problema e fazer da sua resolução a principal prioridade das suas iniciativas.
Não basta os presidentes de câmara e de junta serem simpáticos e taparem todos os buracos da rua, arranjarem mais um salão polivalente e pagarem os foguetes e os conjuntos musicais para actuar em dias de festa. É preciso pensar e agir para resolver os problemas mais difíceis sobre como atrair e fixar pessoas e empresas nos concelhos. É preciso muita imaginação e espírito de colaboração e que os partidos políticos estejam motivados para lutar pelas coisas realmente importantes e não apenas preocuparem-se com coisas acessórias.
O Governo até tem feito a sua quota parte do trabalho, financiando e promovendo grandes projectos para a região, como o aeroporto de Beja, o desenvolvimento das valências da barragem de Alqueva, a operacionalidade do porto de Sines, a melhoria da rede viária regional e a captação de algumas grandes empresas. Mas isto não basta. O Governo, as comissões de coordenação regional, os municípios, os agentes económicos, as associações de agricultores e todas as entidades da região têm de se envolver nesta tarefa urgente que tenha como prioridade estratégica encher o Alentejo de gente. Se há lutas que valem a pena, esta é uma delas.

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