Enquanto Adão dormia profundamente,
podia ter sido da metade do coração,
da pele de um braço terno,
da luz dos olhos,
da carne dos lábios,
mas foi de um osso inestético que
a mulher nasceu já feita
preparada para o encaixe do homem.
E quando o homem acordou,
aparentemente imune à dor e ao sangue
de lhe terem estropiado o flanco,
logo despertou uma serpente no seu tronco,
e Eva, que devido à sua tenra idade,
da abstinência ou da líbido
ainda nada percebia,
não a repeliu, pelo contrário,
pensando pela sua própria cabeça,
agiu com a independência
de achar que o corpo
lhe pertencia na totalidade,
incluindo a carne,
tomou-a em si, caiu em tentação
e transgrediu.
Ainda a palavra não constava
como doutrina irrefutável
e já Eva destruía o primeiro dogma
de que o homem é a cabeça da mulher.
E foi assim,
com a fácil desculpabilização de Adão,
apesar de haver uma forte suspeita
de que o tronco
e principalmente a serpente
lhe pertenciam,
que segundo as leis bíblicas
a mulher inaugurou o pecado e
deu cabo de uma casa de família,
ou seja, e porque só havia essa,
de toda a humanidade.
Ide e multiplicai-vos,
sede santas, piedosas, honradas e belas.
Casai, louvai o vosso homem
e só assim podereis
comer o fruto proibido.
A dor do parto é o grito eterno da culpa.
A semente estava lançada ao chão
da existência dos géneros.
A imagem dos doze apóstolos não
podia, obviamente, incluir
qualquer pessoa que tivesse nascido de uma costela,
(ainda se fosse de metade do coração,
ou da pele de um braço terno,
ou da luz dos olhos,
ou da carne dos lábios)
e, principalmente, tivesse
com as suas curvas voluptuosas
acabado com o paraíso
no tempo que leva a trincar uma maçã.
Os homens afirmaram-se em pai, filho e espirito santo,
as mulheres em mãe, filha e esposa.
Pater familias.
O poder patriarcal,
o pensamento patriarcal,
a sociedade patriarcal,
a opressão patriarcal,
o sistema patriarcal
E as mulheres invisíveis,
não-sujeitos,
passivas, pacientes,
exemplos de moral e de fé
sombras da luz dos pais,
depois sombras da luz dos maridos,
recetoras de fecundação,
vestais, castas, recalcadas
úteros da descendência,
depositárias dos valores privados,
sepultadas na sua condição feminina.
As mulheres foram uma ausência.
E quando saíam deviam usar o cabelo preso
porque os cabelos soltos eram erotismo,
faziam soltar serpentes dos troncos dos homens,
e por isso só a prostitutas usavam o cabelo solto,
e por falar em prostitutas,
já quase nos esquecíamos que afinal
houve uma coisa em que as mulheres foram pioneiras,
contam os homens que foram elas as inventoras
da profissão mais antiga do mundo.
Talvez até tenha sido logo Eva,
porque se ofereceu ao primeiro que encontrou.
A História sempre foi contada por homens.
A História dos tempos é pouco mais
do que a história dos homens.
A História das mulheres
quase não tem tempo e
quase não tem espaço
e por isso não grafou
a memória no feminino.
A História fez com que as mulheres fossem
mais lentas do que o tempo.
Cristalizou-as.
Manteve-as presas nos quartos, nas cozinhas,
nos mosteiros, nos corpetes, no silêncio,
no casamento, na maternidade.
A História não escreveu bem as mulheres,
fez delas camas e mesas de cozinha
e ventres e tetas de leite e viúvas
e lavadoras de roupa, de loiça e de mágoas.
Quanto muito fez notas de rodapé
estabelecendo relações entre o feminino,
o sexo, a luxúria, o mal e a morte.
Presas ao pensamento de Galeno,
a mulher não era um género,
era apenas um osso inestético
rodeado de carne pecadora,
pingando um desejo patológico.
Eterna Lúcifer vestida de folhas de videira,
de túnicas, de vestidos,
de saias, de calças.
E os homens perguntam,
mas afinal o que querem as mulheres?
Essa perplexidade,
esse enigma,
esse continente negro, esse ser encurtado.
Que mal faziam o recalcamento,
as aspirações moribundas,
os desejos secos como desertos,
a circunscrição ao mundo doméstico,
a mutilação genital,
a fantasia morta,
a monotonia?
Porquê o histerismo,
as atitudes desproporcionadas,
as exigências de mudança em torno
de uma não-questão?
Porquê deitar a perder uma identidade
afirmada nas rugas do tempo,
no equilíbrio de toda a existência,
na perfeita tradição?
Que sentido faz a emancipação quando as mulheres
têm um colo para os filhos descansarem
e um ventre para os maridos gozarem?
Porquê mudar o mundo?
E as mulheres respondem que não querem
ser apenas a outra parte
onde o homem encaixa o seu tronco
e a sua serpente,
e querem finalmente
nascer da carne dos lábios,
ou de metade do coração,
e querem tomar posse do seu corpo,
construir-se culturalmente,
evoluir no tempo e no espaço,
assumir o centro,
desorganizar a ordem hierárquica do mundo,
divorciar, divergir,
participar, inverter, subverter,
persistir, integrar, pluralizar,
ser para lá da biologia, da anatomia.
Iguais de género.
Para poderem ser alfa e ómega
dos seus próprios destinos.








