A culpa morreu solteira

Sexta-feira, 21 Novembro, 2014

D. António Vitalino Dantas

Bispo de Beja

Começo a minha nota por um dito frequente, mas pela negativa: a culpa não pode morrer solteira. Mas trata-se apenas da culpa do que fizemos mal ou também do que deveríamos fazer e não fizemos? Na verdade, ouvi na passada semana alguém afirmar, diante de muitos notáveis da política, da economia, das empresas e da sociedade, de que somos também responsáveis pelo que não fizemos. Na confissão de culpas dos cristãos sempre se pediu perdão pelos pecados por pensamentos, palavras, obras e omissões. Por isso para quem assim se confessa pecador, nada de novo na afirmação feita perante notáveis. Mas na realidade isso raramente se põe em prática.
Sucedem-se os governos, mudam-se os responsáveis pela gestão dos serviços e empresas públicas, reconhecem-se erros cometidos ou falta de zelo, mas raramente alguém é chamado à responsabilidade. Por isso a culpa morre solteira e todos pagam por isso. Melhor dito, só não paga quem adiantou a sua recompensa imerecida.
Assim não admira que muitos lutam pelo poder, pois, uma vez alcançado, já não precisam de se esforçar na luta pela realização do bem comum. Esta mentalidade não é de agora. Já na minha juventude havia muitas cunhas para o funcionalismo público devido à estabilidade e segurança do emprego. Num regime democrático, onde os governos e muitos serviços são sujeitos a sufrágio popular e concursos públicos, procuram-se arranjos rápidos e empregos para os amigos, sem critérios racionais e justos. Assim se vai criando uma sociedade arbitrária e do arranje-se quem puder.
Como inverter o caminho desta sociedade fundada no poder, no arranjinho, na corrupção? Temos de criar mecanismos baseados na verdade, na justiça, no amor ao bem comum. Os cristãos têm um imperativo de consciência que os leva a confessar as culpas e procurar emendar-se e reparar o mal feito.
Este mês de Novembro começou com a celebração de todos os santos, através dos quais ouvimos o apelo: “Sede santos porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo. E nele ouvimos a proclamação das bem-aventuranças: felizes os pobres, os que procuram a justiça e a paz, os que sofrem por amor do Reino dos Céus, porque será grande a sua recompensa”. Faltam-nos testemunhas de santidade, para mudar o cenário da irresponsabilidade e da corrupção.

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