Autarcas do distrito de Beja mostram descontentamento com a extinção de freguesias

Autarcas do distrito de Beja mostram descontentamento com a extinção de freguesias

Da esquerda à direita, as opiniões são quase unânimes: as mexidas no mapa das juntas de freguesia propostas pelo Governo no Documento Verde da Reforma da Administração Local representam uma espécie de “certidão de óbito” para várias terras.
Das 100 freguesias que actualmente dão corpo ao Baixo Alentejo, 15 vão desaparecer por completo do mapa e outras 12 terão de ser “fundidas”, dando lugar a apenas… cinco. Ao todo, a região vai ficar com 78 freguesias.
No seio das freguesias que vão terminar, o desalento é notório! Ricardo Romão, presidente da Junta da Trindade (Beja), diz mesmo ser “contra a medida enquanto autarca e 50 vezes contra enquanto cidadão”.
“Sou nascido e criado na freguesia da Trindade, onde também nasceram os meus bisavós, os meus avós e os meus pais e é muito difícil falarmos de uma coisa que nos é querida e que estão a pensar em exterminar”, revela ao “CA” o autarca de 43 anos.
Eleito pela CDU desde 2005, Romão entende que a reforma em marcha não trará qualquer benefício para a região, apenas “mais desertificação”. “Por exemplo, daqui a mais 15 ou 20 anos a Trindade é mais um monte, um aglomerado de casas em ruínas que ninguém habita. Os jovens vão fugir ainda mais da freguesia, os velhotes vão morrendo e não fica cá ninguém”, sublinha.
A poucos quilómetros de distância, em Quintos, a consternação aumenta de tom. “Esta medida penaliza, destrói, mata! Já viu o que é uma pessoa ganhar 200 e tal euros ou menos de reforma e ter de gastar oito ou nove euros na camioneta para ir a Beja buscar os remédios ou ir a uma consulta? E se precisar de um atestado? E se precisar de pagar a luz ou a água? E se precisar de uma coisa dos Correios? Como é que isso vai ser resolvido?”, questiona António Felizardo, presidente da Junta de Freguesia local.
Agastado e preocupado, o autarca de 70 anos, eleito pelo PS desde 1997, vinca que o peso das juntas de freguesias no Orçamento do Estado é “insignificante”. Por isso mesmo, não vê qualquer tipo de utilidade na medida e promete lutar com todos os meios à sua disposição contra uma “reforma feita por quem não tem a mínima noção do que é a vida e do que é viver numa aldeia”. “Vamos ver o que vai dar”, desabafa.
Uma réstia de esperança persiste também em José Sezinando, 56 anos, presidente da Junta de Freguesia da Senhora da Graça dos Padrões (Almodôvar) desde 2009. “Tenho fé num recuo do Governo e estou a lutar por isso, mas como acho um bocado impossível”, diz com resignação o independente eleito pelo PSD.
Sem saber o que fazer para que a sua freguesia “não desapareça”, Sezinando lembra que os mais prejudicados serão os que menos podem. “A Graça dos Padrões é uma freguesia muito envelhecida. Cerca de 70% da sua população está com os seus 80 anos e não tem meios para se deslocar a Almodôvar ou a Santa Cruz, se for esse o caso. E as camadas jovens vão desaparecer daqui. Isto vai ficar ainda mais deserto”, vaticina com pesar.

CONSULTE A LISTA DAS FREGUESIAS QUE VÃO SER EXTINTAS NA EDIÇÃO DE PAPEL DO “CORREIO ALENTEJO”

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