Lufthansa contactou Câmara de Beja sobre escola de pilotos em 2025

A companhia alemã Lufthansa, que na passada semana venceu o processo de privatização parcial da TAP, reuniu em 2025 com a Câmara de Beja, para avaliar a possibilidade de instalar uma escola de pilotos na cidade.

A revelação é feita pelo vereador do PS, Paulo Arsénio, à data presidente da Câmara Municipal, após o Governo ter anunciado, a 14 de outubro, que a proposta da Lufthansa para a aquisição de 44,9% do capital da TAP incluía um investimento de 500 milhões de euros numa nova escola de pilotos em Tancos, no distrito de Santarém.

Em nota publicada na sua página pessoal no Facebook, Paulo Arsénio adianta que, a 18 de junho de 2025, recebeu um “e-mail muito particular”, assinado por Maximilian Kiewel, responsável máximo da Lufthansa pela Política de Defesa e Relações com a NATO.

Segundo Paulo Arsénio, Kiewel indicava no mail “ que a Lufthansa pretendia aprofundar a sua relação com Portugal e aumentar o volume de negócios no país, estendendo-o a outras áreas como a politica de defesa”.

“Acrescentava ainda que Beja era uma solução de excelência para uma escola de pilotos de nova geração da Força Aérea Alemã (formados atualmente pela Lufthansa), bem como da NATO”, continua Paulo Arsénio, indicando que o responsável alemão “fazia ainda complementarmente vários elogios às condições da infraestrutura da Base Aérea [11, em Beja], bem como da cidade para os fins pretendidos pela Lufthansa”.

No mail, acrescenta o socialista, o responsável da Lufthansa dizia também “que acreditava que o projeto seria a médio e longo prazo uma tremenda mais-valia para Beja em termos estratégicos no que concerne à indústria europeia de defesa, nomeadamente com a possibilidade de criação de muitos novos postos de trabalho”.

Quase um mês depois, a 16 de julho, uma comitiva da Lufthansa, liderada por Maximilian Kiewel, foi recebida na Câmara de Beja, tendo informado a autarquia que pretendia instalar em Portugal uma escola de pilotagem que seriam, “na prática”, duas.

“Uma para formação de pilotos militares da NATO, que começaria com pilotos alemães, numa fase inicial, e que progressivamente se entenderia a pilotos de vários países da NATO, e uma escola, de menor dimensão, para treinos de pilotos da Lufthansa”, escreve Paulo Arsénio.

Segundo o antigo presidente da Câmara Municipal, “a Lufthansa veio, como cortesia, informar-nos que Beja era uma forte possibilidade para instalação destas valências do grupo, que estava a tratar tudo com o Governo da República e que em muito pouco tempo (foi afinal em 15 meses) haveria uma decisão final quanto à intenção de investimento nesta área em Portugal”.

Tudo isto leva Paulo Arsénio a manifestar-se “surpreendido” com a escolha de Tancos para acolher a nova escola de pilotos da Lufthansa em Portugal, num investimento que pode ascender a 500 milhões de euros.

“Quando reuni com o Grupo Lufthansa e os seus responsáveis por este investimento, percebi claramente que a sua preferência para esta escola recaía em Beja. Algo se passou portanto entre julho de 2025 e outubro de 2026. O quê?”, questiona o antigo presidente da Câmara Municipal, Paulo Arsénio.

“Nada contra Tancos, nem contra o concelho de Vila Nova da Barquinha, onde se situa, obviamente, mas… Tancos em vez de Beja? Faz algum sentido?”, questiona Paulo Arsénio.

O eleito do PS reconhece que “a Base Aérea/Força Aérea não permitem escolas de pilotagem na infraestrutura”.

“Porém esta ‘escola de pilotagem’, caso tivesse sido instalada em Beja, seria totalmente diferente das demais. Desde logo, porque seria uma escola vocacionada, em primeiro lugar, para a formação de pilotos da área militar. Depois, porque iria abranger o universo NATO. Depois, porque iria ser administrada por um parceiro comercial estratégico do Estado Português, a Lufthansa, reforçado com a venda à gigante alemã da aviação de 44,9% do capital da TAP”, argumenta.

Por isso, continua Paulo Arsénio, “era importante saber quem tomou a decisão de Tancos em ‘desfavor’ de Beja e com que argumentos”. E também “verificar pareceres técnicos dos organismos e organizações que se pronunciaram sobre este matéria, caso existam”, e “dar a conhecê-los com transparência”, acrescenta.

“Quando reuni com o Grupo Lufthansa e os seus responsáveis por este investimento, percebi claramente que a sua preferência para esta escola recaía em Beja. Algo se passou portanto entre julho de 2025 e outubro de 2026. O quê?”, interroga o antigo presidente da autarquia bejense no final da publicação.

O investimento de 500 milhões de euros numa nova escola de pilotos em Tancos, no âmbito da privatização da TAP, foi questionado, na passada semana, pela Comunidade Intermunicipal do Baixo Alentejo (CIMBAL).

Para os municípios, “a opção do Governo configura mais uma forte desconsideração pelo Baixo Alentejo e, evidentemente, mais um contributo para desvalorizar estrategicamente e de forma clara o Aeroporto de Beja”, disse ao “CA” o presidente da CIMBAL, António José Brito.

Também o deputado do Chega por Beja, António Carneiro, criticou a escolha de Tancos para acolher uma escola de pilotos, em detrimento da região.

 “A escolha de Tancos para instalar uma escola de pilotos, num investimento anunciado de 500 milhões de euros, é uma decisão que merece uma explicação séria aos habitantes do distrito de Beja”, frisou em comunicado enviado ao “CA”.

Na resposta, o deputado do PSD eleito por Beja, Gonçalo Valente, afiançou que a nova escola de pilotos não poderia vir para a região por limitações do espaço aéreo.

“A utilização permanente do espaço aéreo em Beja pela Força Aérea [Portuguesa] não é compatível com a utilização do aeródromo para a formação de pilotos com alta intensidade, por uma empresa como a Lufhtansa Tecnics”, afirmou Gonçalo Valente em comunicado enviado ao “CA”.

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Correio Alentejo

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