“Baixo Alentejo tem de ter uma estratégia própria”

Marcelo Guerreiro _ 2026

Em entrevista ao “CA”, o novo presidente do PS do Baixo Alentejo, Marcelo Guerreiro, assume que quer uma Federação “mais presente, mais organizada e com uma ação política permanente”. E garante que não fará “oposição por oposição”, nem aceitará “anúncios sem calendários”.

Assumiu formalmente a liderança do PS do Baixo Alentejo no domingo, 12 de julho. Qual vai ser a sua primeira medida ou ação concreta enquanto líder da Federação?

A primeira ação será reunir o novo secretariado federativo e definir um calendário de trabalho para os próximos meses, com objetivos concretos e responsabilidades claras. Logo de seguida, iniciaremos um ciclo de reuniões com todas as concelhias do PS. Quero conhecer as prioridades, as dificuldades e as propostas de cada estrutura local, dando uma atenção particular aos concelhos onde o PS é oposição e onde a Federação deve assumir um papel mais próximo no apoio político, programático e organizativo. Paralelamente, começaremos a preparar o roteiro da Agenda para o Baixo Alentejo, que nos levará a percorrer o território concelho a concelho, ouvindo o Partido, as instituições e a sociedade civil.

O que vai mudar a partir de agora na forma de atuar da Federação?

Queremos uma Federação mais presente, mais organizada e com uma ação política permanente. O partido não pode funcionar apenas quando há eleições, quando é preciso escolher candidatos ou quando começa uma campanha. A Federação deve acompanhar regularmente as concelhias, apoiar os eleitos, coordenar posições políticas e reagir com rapidez aos problemas da região. Onde governamos, devemos ajudar os nossos autarcas a governar bem. Onde somos oposição, temos de apoiar a construção de alternativas credíveis. Queremos também valorizar mais os militantes, criar espaços de participação e formação e abrir o Partido a simpatizantes, independentes e representantes da sociedade civil. Uma Federação forte não é uma estrutura fechada sobre si própria. É uma estrutura que escuta, mobiliza e transforma preocupações em propostas.

O que vai ser a Agenda para o Baixo Alentejo?

O objetivo é construir uma visão política integrada para a região, com prioridades claras, propostas concretas e compromissos que possam ser avaliados. Não queremos um documento elaborado num gabinete por meia dúzia de dirigentes. Vamos percorrer o território, concelhia a concelhia, ouvir autarcas, militantes, empresários, agricultores, sindicatos, instituições sociais, associações, jovens, investigadores e todos aqueles que conhecem os problemas e podem contribuir para as soluções. Queremos que o Baixo Alentejo deixe de reagir apenas aos problemas à medida que surgem e passe a apresentar ao país uma estratégia própria. Uma estratégia assente em três grandes objetivos: reter mais valor na região, fixar pessoas e reforçar a voz política do território.

O facto de não existirem eleições “no horizonte” possibilita fazer esse trabalho com mais ponderação e tranquilidade?

Sim e devemos aproveitar essa oportunidade. A ausência de eleições no imediato permite-nos trabalhar com mais profundidade, ouvir mais, preparar melhor as propostas e não subordinar todas as decisões a uma lógica eleitoral. É precisamente este o momento para reforçar a organização, formar novos quadros, apoiar as concelhias e construir uma agenda regional séria. Não podemos começar a preparar os desafios eleitorais quando as eleições estão à porta. As vitórias constroem-se com tempo, presença e credibilidade. Este período permite-nos fazer um trabalho político mais consistente, menos condicionado pela urgência de uma campanha e mais centrado nos problemas reais das populações.

“Queremos uma Federação mais presente, mais organizada e com uma ação política permanente. O partido não pode funcionar apenas quando há eleições, quando é preciso escolher candidatos ou quando começa uma campanha.”

Anunciou que o PS Baixo Alentejo vai fazer uma oposição “responsável, mas exigente” ao Governo. De que forma?

Não faremos oposição por oposição. Quando o Governo tomar uma decisão positiva para o Baixo Alentejo, saberemos reconhecê-la e contribuir para a sua concretização. Mas também não aceitaremos anúncios sem calendário, compromissos sem financiamento ou projetos que permanecem anos sem qualquer avanço efetivo. Ser responsável não é ser complacente. É colocar o interesse da região acima da disputa partidária. Ser exigente é fiscalizar, propor alternativas e cobrar a execução dos compromissos assumidos. O nosso critério será muito simples: avaliaremos o Governo pelos resultados que chegam à vida das pessoas, e não pelo número de anúncios ou cerimónias realizadas.

Nesse âmbito, que áreas vão merecer mais atenção do PS?

A ferrovia será uma prioridade, nomeadamente a modernização e eletrificação da ligação Casa Branca-Beja e a reabertura e eletrificação da ligação entre Beja e a Funcheira. Na saúde, acompanharemos a ampliação e requalificação do Hospital de Beja, bem como o financiamento e execução das obras previstas nos centros e extensões de saúde. Na habitação, é necessário criar condições para fixar jovens, famílias e profissionais essenciais. As acessibilidades rodoviárias, incluindo a ligação entre Beja e a A2, também exigirão uma fiscalização permanente. Teremos ainda uma atenção especial à gestão da água, à agricultura, aos serviços públicos, à criação de emprego qualificado e à capacidade de a região reter mais da riqueza que produz. Não são temas isolados. Todos eles estão ligados à capacidade de fixar população e de garantir que viver no Baixo Alentejo não significa ter menos direitos ou menos oportunidades.

Como avalia a atuação dos governos da AD relativamente ao Baixo Alentejo nestes dois anos de funções?

Considero que existe uma diferença demasiado grande entre os anúncios feitos e a concretização efetiva. Em matérias estruturantes, como a ferrovia, o Hospital de Beja, as acessibilidades rodoviárias ou o financiamento de equipamentos de saúde, continuam a faltar passos concretos, calendários seguros e execução visível. O Governo tem demonstrado capacidade para anunciar intenções, mas ainda não demonstrou a velocidade de execução de que a região precisa. O Baixo Alentejo não pode continuar a esperar indefinidamente por investimentos que são reconhecidos por todos como essenciais. Depois de dois anos, já não basta dizer que os processos estão em preparação. É necessário apresentar resultados, procedimentos lançados, financiamento assegurado e obras no terreno.

Durante o Congresso também se ouviram muitos socialistas, sobretudo autarcas, a criticarem a atuação dos anteriores governos do PS e do “PS de Lisboa” face ao Baixo Alentejo. Sente que são críticas legítimas?

São críticas que devem ser ouvidas com seriedade. O PS fez muito pelo Baixo Alentejo, tomou decisões importantes e lançou investimentos estruturantes. Seria injusto apagar esse trabalho. Mas também seria errado fingir que tudo foi feito bem ou que todas as necessidades da região tiveram a resposta necessária. Houve projetos que demoraram demasiado tempo, prioridades que não foram concretizadas e decisões demasiado centralizadas, muitas vezes sem a participação suficiente de quem conhece o território. Um partido responsável deve saber valorizar o que fez, mas também reconhecer onde falhou. Não podemos exigir ao atual Governo aquilo que nunca fomos capazes de exigir aos nossos próprios governos. Quero uma Federação leal ao PS, mas não submissa. Uma Federação capaz de dialogar com a direção nacional, de contribuir para as soluções e, quando necessário, de dizer com clareza que o Baixo Alentejo precisa de mais atenção, mais investimento e maior presença nos centros de decisão. A lealdade ao partido não pode estar acima da lealdade ao território e às populações que representamos.

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