Mário Simões. “Política é um capítulo encerrado”

Foi líder das distritais da JSD e do PSD, autarca e deputado. Depois de 30 anos de vida política ativa e 10 afastado dos holofotes mediáticos, Mário Simões garante ao “CA” que não irá regressar à política partidária e lamenta que muitas das suas preocupações de então ainda estejam por resolver.

Há quem diga que quem passa para a política nunca deixa a política. No seu caso, a política é um capítulo encerrado?

Sim, a política é um capítulo encerrado. A política partidária! O interesse pela atividade política continua e pela associativa também, mas temos períodos na vida em que fechamos capítulos, abrimos outros e transportamos connosco um conjunto de aprendizagens que podem ser uma mais-valia no exercício de funções e projetos.

Saiu magoado com alguém ou com algo da política partidária?

Saí desiludido, desapontado por alguma falta de reconhecimento e de gratidão que não há, seja comigo ou com a generalidade das pessoas que exercem determinadas funções num determinado período. E depois não há o reconhecimento do empenho, do trabalho, do desgaste, dos dias que se perdem de contacto com a família, com os filhos… E quando fazemos uma retrospetiva, isso é algo que nos deixa magoados. Mas a vida é assim, temos que saber viver com isso e sair [da política] com a consciência tranquila.

É o seu caso?

Sim. Tenho essa consciência, quando estive dei o melhor de mim em prol do que me propus, nomeadamente tendo sempre presente os superiores interesses da população. Toda a minha vida política, que foram cerca de 30 anos, foram exercidos a lutar por causas e empenhado na construção de uma sociedade mais justa. Podia dar vários exemplos, não é o momento, mas hoje essa experiência para mim é importante, é uma mais-valia e olho para trás com sentimento de dever cumprido.

“Não me revejo no modelo das CCDR de hoje, é um modelo híbrido que não se entende.”

Foram 30 anos de vida partidária, das autarquias à Assembleia da República. Olhando para esses últimos anos enquanto deputado, sente que aquelas que eram as suas preocupações de então hoje em dia estão resolvidas?

Muitas infelizmente não estão! Não vou voltar a falar aqui das questões das acessibilidades, que hoje estarão a ter já um final feliz. Mas lembro-me que o que estava definido no Plano Rodoviário Nacional e no Plano Ferroviário Nacional é que a eletrificação da linha para Beja estaria concluída, salvo erro, até 2022 e a requalificação do IP8, com as variantes de Figueira de Cavaleiros e de Beringel, estaria concluída para 2020. Estamos em 2026… Lembro-me que quando entrou o Governo do primeiro-ministro António Costa, na altura o ministro das Infraestruturas era o Pedro Marques, que simplesmente “rasgou” esses compromissos e nunca mais se avançou até agora. Mas podemos ver também a componente agrícola. Na altura batalhei muito para se rever aquilo que são as zonas de proteção especial (ZPE), em que a área que nós temos não faz qualquer sentido. Tive a oportunidade, na altura, de visitar herdades do Estado com agricultura experimental, onde tinham pivôs e presenciei abetardas e grous nos pivôs, numa convivência pacífica e natural. E depois dizem que na zona do Campo Branco, por exemplo, não se pode levar a cabo estratégias de regadio, porque temos a ZPE? Vejo com muita tristeza a situação de Moura, que continua a ser gritante, pois Moura está no “coração” do Alqueva e não consegue ter acesso à água. Isto são pequenas situações que, efetivamente, ainda estão por resolver ao fim destes anos todos.

Isso deve-se ao facto de Beja ter pouco “peso político”?

Isto deve-se, desde logo, à falta de vontade política. Deve-se a que muitos destes decisores são muito académicos, com pouca experiência no território e de contactar com a realidade através dos empresários e através das associações. E também, naturalmente, a alguma perda de influência e pouca capacidade reivindicativa.

Dos políticos locais, que não se conseguem “impor” junto dos seus líderes nacionais?

Em muitos casos sim, mas isto é entrar na análise política e eu não sou analista nem comentador.

“Preocupa-me, sobretudo, a escolha dos nossos representantes, da direita à esquerda. E na nossa região, sobretudo, a escolha ao nível do Chega, que é assustadora!”

Tendo saído magoado da política partidária, havia alguma coisa que o fizesse regressar?

Não! Posso deixar alguns descansados. [risos]

Sente-se mais realizado neste momento como empresário?

Sem dúvida!

O que é que o preenche enquanto empresário?

Desde logo, trabalhar para mim e para a minha família e perspetivar um caminho que um dia também pode ser dos meus filhos. Apesar de eu seguir uma velha máxima que me foi ensinada por um grande empresário moçambicano, que me disse, que temos que educar os filhos para serem nossos sucessores e não para serem nossos herdeiros. E é isso que eu quero fazer. Que do ponto de vista empresarial estejam capacitados para um dia se tornarem empresários e poderem fazer mais e melhor do que o pai tem feito.

Quando esteve ligado à vida partidária, a realidade política da região era relativamente diferente na correlação de forças. O PSD surgia sempre na luta para se tentar intermeter naquilo que era a hegemonia, numa primeira, fase do PCP e, depois, do PS. Neste momento, o quadro alterou-se com o surgimento do Chega e o seu crescimento eleitoral. Mesmo não sendo comentador político, como é que vê essa nova realidade?

Com naturalidade! Escrevi há cerca de 20 anos um artigo em que, na altura, dizia que em duas décadas o PSD seria uma força importante no distrito a ganhar câmaras e a ganhar representatividade. Porque isso, efetivamente, seria a evolução da sociedade. Era natural que o Partido Comunista viesse a perder implantação e que o PSD, que era a terceira força, viesse a construir o seu caminho e a reforçar o seu posicionamento eleitoral. Na última década, também por esgotamento dos partidos tradicionais, foram surgindo sinais de descontentamento com o modelo de representatividade existente, que levou ao surgimento de alguns movimentos partidários que poderiam vir a crescer eleitoralmente. O Chega acabou por ser a tradução dessa necessidade e desse descontentamento, com uma particularidade.

Qual?

O Chega surge a disputar espaço eleitoral a todos os partidos. Inclusivamente ao Partido Comunista. E isso é uma coisa curiosa, porque, de alguma maneira, se transformou num partido de protesto, que é aquilo que o Partido Comunista sempre foi. Transformou-se num partido de protesto a saber aproveitar as ferramentas que as novas gerações usam, como as redes sociais, uma comunicação muito forte e um conjunto de ideias populistas. E temos assistido a isso desde a saída do Pedro Passos Coelho, ou seja, os governos alhearam-se um bocado daquilo que é a perceção da realidade nacional e, na sua bolha, não perceberam que cada vez mais há um fosso entre eleito e eleitor. O país passa por um conjunto de desafios importantes, os problemas da interioridade, a política de imigração, a insegurança, o caos na saúde, perda de rendimento da população, incerteza global, e o Chega sabe aproveitar essas fragilidades, por isso tem crescido. Contudo, apesar da representatividade parlamentar, não acho que esteja, para já, a crescer de forma consistente.

Porquê?

Continua muito focado no voto de protesto e se não apresentar propostas consistentes de políticas públicas, e deixar a verborreia de lado, não chegará lá. Mas agora também cabe a quem governa conseguir mostrar à opinião pública que, efetivamente, consegue fazer mais, consegue fazer melhor e fazer diferente para impedir esse crescimento eleitoralista e populista.

“Toda a minha vida política, que foram cerca de 30 anos, foram exercidos a lutar por causas e empenhado na construção de uma sociedade mais justa.”

Preocupa-o este crescente populismo, sobretudo dentro das gerações mais jovens? Ou compreende, de certa forma, algumas das suas razões?

Claro que deve preocupar, mas também há muitas matérias que, se fizermos uma análise mais racional, conseguimos encontrar justificação. Preocupa-me, sobretudo, a escolha dos nossos representantes, da direita à esquerda. E na nossa região, sobretudo, a escolha ao nível do Chega, que é assustadora! Faço um parêntesis para dizer que tenho boa opinião do vereador de Beja e, no plano nacional, há alguns quadros bons, que conheço do PSD. O Chega cresceu como nenhum partido novo conseguiu e isso deve-se à capacidade do seu líder e à sua inteligência. Podemos concordar ou discordar, mas há que o reconhecer. Outra questão é olharmos para o quadro de responsáveis políticos no plano global e essa, de facto, é muito má. E esta falta de qualidade de quem nos representa pode ter um custo significativo para a região, porque os interlocutores não têm a capacidade que outrora outros tiveram de saber colocar na agenda política um conjunto de preocupações e lutar por elas com inteligência, com sabedoria, com educação e respeito institucional. E, muito importante, com convergência reivindicativa! Ou seja, quando era necessário juntavam-se num desígnio conjunto, nem que isso custasse estar contra as orientações partidárias. E nós estamos a perder muito desses valores que nos acompanharam desde o 25 de Abril.

Continuando no comentário político, como avalia as alterações introduzidas na organização das Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR)?

Não me revejo no modelo das CCDR de hoje, é um modelo híbrido que não se entende. O presidente da CCDR e dois vice-presidentes são eleitos por um colégio eleitoral regional, um mais de autarcas e o outro com a sociedade civil envolvida. E depois temos cinco vice-presidentes que são nomeados pelo governo e que dependem da tutela. Não está em causa as pessoas e admito que cada um esteja a querer dar o seu melhor contributo, mas temos que entender que cada um pode ter uma agenda própria. E uma agenda própria que depende só daquilo que são as orientações do Governo e das ambições pessoais. Alguém consegue-me explicar que este modelo serve os interesses da população? Eu não consigo entender, honestamente não consigo entender. Como também não consigo entender que o presidente da CCDR seja uma escolha dos líderes nacionais do PS e do PSD. Isto é um atestado de menoridade àquilo que é o estatuto e prestígio do autarca que é eleito pelo povo. E os autarcas não protestam, os autarcas aceitam aqui uma espécie de papel menor e aceitam estas regras? Não quero colocar achas na fogueira – e tenho muito apreço e tem sido uma boa surpresa o novo presidente da CCDR –, mas podemos questionar, se não houvesse este acordo, se a atual composição dos eleitos seria esta? Enquanto cidadão, enquanto empresário, não me revejo neste modelo. É uma afronta ao estatuto e independência dos autarcas. Cada vez mais se impõe que se cumpra a constituição com a implementação das regiões administrativas e continuo a defender o Alentejo como região-piloto.

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