Há doenças que atacam o corpo como uma tempestade: chegam de repente, derrubam, dilaceram, deixam marcas visíveis. E há outras, mais silenciosas, que entram no corpo como o nevoeiro quando invade ruas e campos. Não trazem dor física, nem fazem ruído. Apenas se espalham devagar, ocupando tudo. A doença de Alzheimer é uma dessas. Talvez a mais cruel, porque não leva apenas a vida… leva antes a memória dela.
Conheci, velhos que envelheceram com a lucidez intacta, como árvores antigas que deram sombra e conselho até ao fim. Alzheimer é outra coisa. Alzheimer é o império do vazio. Não é apenas esquecer onde se deixaram os óculos ou do nome de um vizinho. É um apagamento mais fundo, mais íntimo e cada vez mais profundo.
É como se algo ou alguém entrasse na biblioteca da nossa existência e começasse a arrancar páginas ao acaso.
No princípio, quase ninguém percebe. A pessoa repete uma história ao almoço e volta a contá-la ao jantar, como se fosse a primeira vez. Pergunta pelo neto que acabou de sair da sala. Esquece a panela ao lume. A família sorri, desculpa: “é da idade”. Talvez seja esse o primeiro engano. Porque a velhice pode tornar-nos mais lentos, mas não nos rouba de imediato o mapa da vida. O Alzheimer, sim. Vai rasgando esse mapa até a pessoa já não saber quem é, onde está, nem quem a acompanha.
Há uma tristeza particular em ver alguém desaparecer sem sair do mesmo lugar. O corpo continua ali: senta-se à mesa, dorme na mesma cama, usa o mesmo pijama de sempre. Mas a pessoa começa a afastar-se, como um barco que se solta do cais numa madrugada de nevoeiro. Nós ainda a vemos, ainda lhe acenamos, mas já não temos a certeza de que nos reconhece.
O mais doloroso não é o doente esquecer. É quem fica, ser esquecido. Um filho pode suportar muitas dores, mas poucas são tão fundas como olhar para uma mãe e perceber que, nos olhos dela, já não existe.
Ela chama-lhe “senhor”, pergunta se vem da mercearia, ou confunde-o com o irmão morto há cinquenta anos. E naquele instante percebe-se que a memória não é apenas uma gaveta de recordações: é a própria casa onde moramos uns nos outros. Talvez por isso o Alzheimer seja uma doença da família inteira. Não se instala só na cabeça de quem a sofre; espalha-se pela mesa, pelas conversas, pelas noites mal dormidas. Os filhos passam a vigiar o fogão, a fechar portas, a repetir nomes, a espalhar post-its por todo o lado, a explicar o mundo vezes sem conta. Tornam-se pais dos próprios pais. E essa inversão tem qualquer coisa de profundamente comovente e injusta.
Mas há também momentos de uma beleza inesperada. Um doente que já não reconhece os filhos pode, de repente, cantar uma cantiga da infância inteira, sem falhar uma palavra. Uma mulher que esqueceu o próprio nome pode sorrir ao cheiro do pão acabado de cozer. Como se certas memórias não morassem na cabeça, mas noutra parte mais funda, talvez no corpo, talvez na alma.
Talvez seja por isso que, quando visitamos alguém com Alzheimer, não vamos apenas ver o doente. Vamos, sem querer, enfrentar o nosso próprio medo: o de um dia esquecermos o nome de quem amamos… ou pior, sermos nós a desaparecer primeiro da memória deles.

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