Édas palavras mais belas que existem. Belas mas difíceis de conseguir. Não é toda a terra política, cultural e educativa que as dá. Há, aliás, cada vez menos chão que as produza em quantidade suficiente para alimentar as pessoas e as manter saudavelmente independentes.
O cultivo da independência é posto de lado, sai caro, precisa de tempo, de livros sobre o passado, de sonhos sobre o futuro, de capacidade de análise, de direito à opinião, de pais dedicados, de escolas atentas, de políticos desinteressados.
A independência é uma coisa parecida com uma árvore, daquelas que não abanam. Mas também é parecida com os pássaros. Principalmente com os pássaros – os livres, bem entendido. E também é parecida com a equidistância e com a capacidade de dizer não e com o olhar de frente e com o não precisar de favores e cunhas para nada.
E por isso tem que se ensinar abundante e continuamente que a vida de cada um não pode depender do grupo de pares, da misericórdia, da chantagem, do resultado de eleições, das palmadas nas costas, dos sorrisos falsos e de circunstância. E o que não falta por aí são estas pressões e estes esquemas, e de tão profusamente disseminados na nossa sociedade até parece que fazem parte do nosso modo de vida. Pertencer a qualquer coisa, estar integrado, não sair da linha, respeitar qualquer tipo de autoridade por mais arbitrária e incompetente que ela seja, fazer-se de morto, não dizer nada, não fazer nada com medo das consequências que daí possam advir.
Obviamente que estar dependente não é uma escolha, é quase sempre fruto de um espartilho, um plano urdido sob a insuspeita capa da democracia e da liberdade.
A independência não começa aos dezoito anos, o cartão de cidadão não nos dá nenhuma capacidade de perceber o mundo, não, tem de ser logo lá mais atrás que os cidadãos se formam, se instruem, para que estejam atentos, despertos e deles, das suas falhas por ausência de horizontes, não haja aproveitamento. Mas há tanto aproveitamento dessa inaptidão dos indivíduos, há tanto poder abusivo exercido sobre as suas dependências e as suas necessidades.
E o poder que se exerce sobre um indivíduo alastra-se ao resto da família, arrasta-a também para a submissão institucional, económica e cultural, formando uma imensa rede de subordinação e servidão. Por pouco que seja, por pequenas migalhas que se recebam, pão aqui, circo ali, o mais grave seria perder esses escassos benefícios. Ainda que isso implique matar o orgulho e a dignidade.
A independência de um cidadão perante a prepotência dos homens poderosos é um trabalho muito árduo. Por isso há tão poucos realmente livres.

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