Romaria da Senhora da Cola em Ourique. Uma tradição “bem viva”!

Há tradições que nunca “morrem”, mesmo que a modernidade dos tempos aponte noutras direções! É assim no santuário de Nossa Senhora da Cola, no concelho alentejano de Ourique, que nos dias 7 e 8 de setembro voltou a encher-se de “romeiros”, que não faltaram aos festejos em honra da padroeira do local, promovidos pela Santa Casa da Misericórdia.

Trata-se de uma peregrinação “ancestral”, criada pelos grandes proprietários da região e do Algarve, que tem atravessado gerações de ouriquenses. Todos eles, sem exceção, guardam uma memória destas celebrações, onde o sagrado se junta ao profano.

“A romaria confunde-se com a história de todos nós em várias gerações, é um local de reencontro, de fé e de magia que nos enche a alma”, refere o provedor da Santa Casa da Misericórdia de Ourique (SCMO), José Raul dos Santos ao “CA”. “Quando nos estamos a caminhar para o santuário percebemos que não nos encaminhamos apenas para um lugar geográfico: caminhamos para um lugar espiritual e de paz interior”, diz.

Segundo este responsável, esta romaria secular “evidencia-se pela sua rusticidade e pelo convívio entre o sagrado e o profano, facto que tem mantido intacto o encanto e a sedução desta tradição”, numa celebração que “está no coração das pessoas e faz parte da sua identidade há várias gerações”.

O provedor da SCMO acrescenta que a romaria acaba por ser um momento que vai além das atividades “formalmente religiosas”, sendo antes “uma festa da identidade cultural”, que “junta várias gerações”.

“Muitos dos costumes e tradições do passado foram alterados com o decorrer dos tempos, mantém-se, contudo, uma forte devoção à Senhora da Cola em toda a região. Esta devoção tem resistido ao longo dos tempos porque os romeiros e os devotos aceitam a romaria como um espaço de reinvenção, ou seja, um espaço de interação entre a tradição e a modernidade, onde a festa pode ser (re)construída. Por essa razão, a romaria perdura no tempo, adaptando-se aos diferentes contextos”, argumenta.

Tudo isto faz com que a tradição de celebrar a Senhora da Cola continue “bem viva” entre a população, comprovada pela “enchente” registada este ano, depois da pandemia ter impedido as comemorações em 2020 e 2021. Mas, alerta o provedor da SCMO, há “sinais” que não podem ser ignorados.

“Segundo os últimos Censos, praticamente todo o interior do país perdeu população de forma acentuada e o índice de envelhecimento aumentou. Infelizmente, Ourique não é exceção. A questão que nos deve afligir a todos é o problema do interior envelhecido e desertificado. Numa terra sem população, não há tradição que resista, porque a mesma vive através das pessoas”, nota.

“Devoção [à Senhora da Cola] tem resistido ao longo dos tempos porque os romeiros e os devotos aceitam a romaria como um espaço de reinvenção, ou seja, um espaço de interação entre a tradição e a modernidade, onde a festa pode ser (re)construída”, diz o provedor José Raul Santos.

Romaria da Senhora da Cola em Ourique. Uma tradição “bem viva”!

Proprietária do santuário, cuja edificação será anterior ao século XVI, cabe à Santa Casa da Misericórdia de Ourique (SCMO) organizar a romaria em honra de Nossa Senhora da Cola. Nesse plano, o provedor José Raul dos Santos destaca  “a participação e boa vontade dos funcionários” da instituição na preparação e durante os festejos.

“Não há adjetivos para o seu empenho, esforço e dedicação […]. São muitas horas sem descanso, um corre para lá e para cá, para que tudo esteja perfeito. Esta é também a celebração dos funcionários e de todos os que a apoiam”, afirma.

Em 2023 a romaria da Senhora da Cola vai regressar, porque a SCMO “tem a responsabilidade de a preservar, adaptando-se, obviamente, às circunstâncias do decorrer dos tempos”, diz o provedor.

Ainda assim, nota, será necessário “realizar obras de restauro e conservação do interior e exterior” da Igreja de Nossa Senhora da Cola. “A intervenção mais preocupante será no interior da igreja, que é revestida a talha dourada, um trabalho moroso e de custo elevado, pelo que será praticamente impossível sem apoios ou parcerias. Também a Casa dos Romeiros necessita de obras de reabilitação, embora estas sejam menos preocupantes”, revela.

A par disso, a instituição pretende abrir as portas da igreja uma vez por semana, com o objetivo de “mostrar, valorizar e dinamizar o património religioso da Misericórdia de Ourique”.

Fotos: Santa Casa da Misericórdia de Ourique

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