Misericórdia de Mértola tem enfermagem “ao domicílio”

Misericórdia de Mértola tem

Em finais de 2014 a Misericórdia de Mértola acrescentou cuidados de enfermagem ao seu Serviço de Apoio Domiciliário (SAD). Um apoio inestimável para mais de uma centena de utentes e que tem ajudado a prevenir muitos problemas de saúde, tal como confirmou no terreno o “CA”.

Passa pouco das 10 da manhã e Fernando Gusmão, 85 anos, ainda não pregou olho. A noite foi passada com quase sempre: em frente ao computador, a jogar xadrez, na solidão da sua casa à entrada de Mértola. Viúvo há cinco anos, este antigo funcionário bancário não consegue alterar os hábitos noctívagos, dormindo de dia para depois passar as noites em claro, seja ao computador ou a ler. E é “desnoitado” que recebe a visita da enfermeira Viviana Ribeiro (e do “CA”), que nessa manhã lhe vai recolher sangue para análises clínicas.
“Outra vez nisto, senhor Gusmão?”, questiona num misto de ternura e censura. “Vou acabar com isto, que não faz nada bem. Fica descansada”, responde de imediato o octogenário a sorrir, enquanto começa a tirar o casaco e a dobrar a manga da camisa. Nessa altura já Viviana está de seringa na mão, preparada para lhe retirar sangue, operação que demora poucos segundos. Depois seguirá de imediato para o laboratório da vila, que está quase a fechar portas, para deixar as amostras. Mas não sai sem antes medir a tensão arterial de Fernando Gusmão e deixar-lhe alguns conselhos. “E agora vá para a cama, que são horas de descansar”, diz na despedida, em jeito de ordem.
Fernando Gusmão sofre de depressão e é um dos 115 utentes apoiados pelo serviço de enfermagem do Serviço de Apoio Domiciliário (SAD) da Santa Casa da Misericórdia de Mértola (SCMM). Um serviço inovador e que aposta, essencialmente, na prevenção.
“A prevenção previne hospitalizações, previne entradas em lar… E o objectivo era mesmo esse: controlar as doenças crónicas e a polimedicação”, explica Viviana Ribeiro. “Ou seja, não estamos à espera que haja um problema para intervir. Conseguimos prevenir antes. E os utentes têm recebido isto muito bem. Só o estar lá, explicar como está a glicémia ou os resultados das análises, já os deixa muito satisfeitos”, acrescenta a enfermeira, de 31 anos, que é a responsável no terreno pelo serviço.
“Ela faz o que for preciso… Recolhe sangue, mede a tensão, dá vacinas, conversa comigo. É muito bom! E assim escuso de ir ao Centro de Saúde”, confirma Fernando Gusmão.

“Apoio fundamental”
O serviço de enfermagem do SAD da Misericórdia de Mértola chegou ao terreno em finais de 2014, no sentido de prestar melhores cuidados de saúde àqueles são apoiados diariamente pela instituição. Uma aposta justificada pelo facto deste ser um concelho com quase 1.280 kms quadrados e onde muitos idosos vivem isolados.
“É um serviço que pelas características que a população tem é de facto importante e fundamental. Sobretudo por ter uma parte educativa”, sublinha José Alberto Rosa, provedor da Misericórdia de Mértola. “Pretendemos que este [serviço] seja uma mais-valia para a população idosa do concelho e que melhore, diferencie e particularize os cuidados na área da saúde mais próxima de quem necessita”, acrescenta Alice Romão, directora-técnica do SAD.
Reforçar o acompanhamento do estado de saúde do utente em articulação com os serviços de saúde, despistar precocemente sinais e sintomas de doença, acompanhar o plano terapêutico do utente (de forma a reduzir a polimedicação) e prevenir doenças crónicas estão, assim, entre os objectivos estabelecidos para o serviço de enfermagem do SAD da Misericórdia de Mértola. Isto além de prestar os cuidados podológicos que não possam ser assegurados pelo Serviço Nacional de Saúde ou apoiar na reabilitação motora e/ou funcional dos utentes que dela necessitam.
“Tirei a especialidade de reabilitação e a minha intervenção também tem que ver muito com a parte reabilitativa, seja após cirurgias, seja após um AVC ou em doentes com demência”, explica a enfermeira Viviana Ribeiro já fora do carro onde todos os dias percorre dezenas de quilómetros. Estamos agora na pequena aldeia de Diogo Martins, onde a enfermeira irá assistir Felismina Godinho, 81 anos, ainda a recuperar de uma cirurgia à perna esquerda, que fracturou.
Segue-se uma bateria de pequenos exercícios motores para Felismina. Ora deitada na cama, ora em pé. E no final, uns passos até à cozinha com o apoio do andarilho. “Custa muito, dói-me, mas noto que depois fico melhor. Tenho gostado muito”, revela a idosa já em repouso na sua cama depois de meia hora de exercício.
Viviana só voltará a Diogo Martins (e à casa de Felismina Godinho) na semana seguinte. Até lá esta idosa será apoiada nos exercícios de recuperação pela nora Cândida, que trabalha no SAD e recebe as instruções da enfermeira sobre o que fazer nos dias seguintes. E esta é outra das vantagens deste serviço de enfermagem: a estreita ligação que existe entre a enfermeira e todas as auxiliares do apoio domiciliário. “Assim evitamos que muitos idosos tenham de ir ao Centro de Saúde de Mértola e, eventualmente, serem encaminhados para as urgências em Castro Verde ou Beja”, esclarece Viviana Ribeiro.
Tudo isto faz deste “simples” serviço de enfermagem um instrumento precioso no combate ao isolamento. Uma grande vitória para Misericórdia de Mértola… e não só! “Assim também combatemos a interioridade”, remata o provedor José Alberto Rosa.

Partilhar

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Correio Alentejo

Artigos Relacionados

Role para cima