Tradição e renovação

Quinta-feira, 18 Dezembro, 2014

D. António Vitalino Dantas

Bispo de Beja

No dia 25 de Novembro do corrente ano a Unesco declarou o cante alentejano património imaterial da Humanidade. Parabéns aos alentejanos por terem sabido conservar viva a sua cultura musical, expressão profunda e bela do seu modo de comunicar e conviver em sociedade. A influência do poder comercial e mediático dos modernos cantores de outros países não conseguiu abafar a alma alentejana. Mas espero que a crise demográfica também não o consiga, relegando o cante para os ambientes museológicos e retirando-o das igrejas, das festas populares, da rua e das tabernas.
A tradição cultural, o clima e a natureza fazem parte da identidade de um povo. No panorama nacional, o Alentejo ainda é das poucas zonas onde a tradição se mantém. Mas sabemos que sem evolução e renovação não será possível ter futuro, no cante e em todas as expressões da vida de um povo. Por isso será necessário estudar esta expressão cultural, torná-la presente nas escolas elementares e superiores, para que não degenere.
Este reconhecimento trouxe honra aos alentejanos, mas também compromissos em ordem à preservação deste património. Quem se encarrega disso, contando com a colaboração de todos? Autarquias, escolas, igrejas, festivais, clubes? Aqui está uma área em que todos somos corresponsáveis e devemos colaborar. E não é favor nenhum, pois o cante encanta, junta, une e fraterniza as pessoas e os ambientes. Da nossa parte tudo faremos para que o cante alentejano na sua versão religiosa continue a ecoar nas nossas igrejas e procissões.
Mas muito mais coisas, modos de ser, valores e ideais precisamos de transmitir às novas gerações e adequá-las aos novos tempos. O Papa Francisco, nos discursos feitos recentemente no Conselho da Europa e no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, desafiava estas instituições importantes na construção de uma Europa de paz e de progresso a não ficarem apenas pela dimensão económica e financeira da comunidade europeia, mas a colocarem no centro das suas decisões a dignidade da pessoa humana nas suas relações multipolares e transversais.
A verdade, a solidariedade, a subsidiariedade, o bem-comum, o nós integral das pessoas em sociedade são património da doutrina social da Igreja sobre o qual os fundadores da Europa quiseram construir uma Europa que resolve os seus conflitos e divergências pelo encontro das pessoas e dos povos através do diálogo e não pela violência das armas, pelo consenso e entreajuda.
Este rico património da Europa, criado ao longo de séculos, cultivado pelos filósofos, escritores, artistas, igreja, escolas e universidades, expresso de muitos modos, tem raízes profundas que é preciso conhecer e amar, para que daí surjam novos dinamismos de desenvolvimento global para toda a humanidade, sem marginalizar ninguém, pessoa, grupo ou povo, nem reduzindo as pessoas a números ou objetos descartáveis.
A visão bíblica e cristã do mundo contém potencialidades benéficas para a construção duma nova civilização de paz e de amor, como se exprimia o bem-aventurado Papa Paulo VI.

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