Segurança. Credibilidade. Fama.

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Sandra Serra

As conversas de café, famosas por se falar de nada ou da vida de alguém, e mais ainda as chamadas conversas sociais de circunstância, em que se fala de como é que está a vida, do que se faz no momento, da família, comportam, digo eu, importantes tópicos de reflexão. É aqui que muitas vezes percebemos o sentir de uma comunidade. Por exemplo, a forma como a sociedade vê as profissões.
Aqui, três, entre muitos outros factores, servem de medidor para analisar a “qualidade” desse emprego: Segurança. Credibilidade aos olhos da sociedade. Possibilidade, ainda que muito remota, de alcançar “a fama”, definem se este ou aquele é um emprego bom. Depois as condicionantes regionais têm muita importância. Há profissões que se podem ter em Lisboa. Em Lisboa é bom. Em qualquer terra do Alentejo é mau.
Um exemplo. Experimente, numa mesa de café, fora do seu círculo de amigos mais íntimos, apresentar “este é fulano tal, bancário”. Ser bancário é bom. É credível. Ninguém levanta o sobrolho ao perguntar: “Então e estás a estudar para quê?” se obtiver de resposta: “Para advogado”. Quanto muito o inquisidor pronunciará um som de concordância, juntamente com um leve abanar de cabeça – <i>aaahhh! </i>Ser advogado é bom. Fiável. Credível. Bom partido. Ninguém se lembrará de perguntar imediatamente em que firma é que exerce, se é advogado de defesa ou acusação, se é bom ou mau profissional. Ser advogado, bancário, GNR, funcionário público é visto pela sociedade em qualquer terrinha deste nosso país à beira-mar plantado, como bom. Seguro. Credível.
Depois há as outras profissões que apesar de serem consideradas pela “tal” sociedade como boas. Credíveis. Fiáveis, comportam consigo o peso da regionalidade. Jornalista é bom. “Este é fulano tal, jornalista”. Juntamente com o leve abanar de cabeça de concordância vem o “<i>Aaahhh!</i>”. Mas já aqui, segue-se sempre uma pergunta: “Então e onde é que trabalhas?”. Se neste instante a resposta for qualquer coisa do género, “No jornal X em Beja” ou “Na rádio Y em Freixo de Espada à Cinta”, os músculos da face do interlocutor mover-se-ão até levantar os dois sobrolhos em jeito de simpatia e solidariedade, como quem diz: “É preciso começar por algum lado, não é? Então e não queres ir para Lisboa, para a televisão?”.
E ainda há depois outras profissões, aquelas que só são valorizadas se comportarem consigo “a fama” e onde se aplicará o “<i>Aaahhh!</i>” juntamente com o leve abanar de cabeça em sinal de concordância. “Então e o que fazes agora?”. “Sou pintor”. “De construção civil?”. “Não, pinto aguarela”. E agora vem o outro “<i>Aaahhh</i>”, aquele de como quem diz: “Pois não fazes nenhum”, seguindo de um “Mas não trabalhas?”. Porque ser pintor no Alentejo não é visto como uma profissão, um emprego, é um <i>hobbie</i>, algo que se faz quando se sai do trabalho às 17 horas e depois de ir ao Intermarché. Ser pintor? Só se se chamar Paula Rego. Escultor? De Cutileiro para cima. Coreógrafo? O Rui Horta, que ainda bem que o temos, pode ser. Actor? “Aparece na televisão?”. Contador de histórias. “Como o Serafim? Então e não vai ao Levanta-te e Ri?”.
Longo é o caminho de quem escolhe um caminho que não seja o convencional. O bom. Seguro. Credível. Longo é o caminho a percorrer apenas para que a “tal” sociedade chegue à conclusão de que aquela “ocupação” que a pessoa escolheu é a sua profissão. E que a escolheu não temendo todos os percalços que lhe possa trazer em termos de segurança, financeira, leia-se, mas por paixão; e que todos os dias luta para que o seu trabalho seja o mais credível possível. Que seja bom, para os outros principalmente, porque (nem todos é verdade) trabalha para o próximo, para o desenvolvimento social e cultural de uma região e não para o seu umbigo.

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