Recomeçar

Quinta-feira, 8 Janeiro, 2015

Vítor Encarnação

Encerrámos o ano como quem atira um calendário velho para o lixo. Sem remorsos. Ano novo, vida nova. Podemos então recomeçar. Saciados de bolo-rei e de filhoses, fazemos de conta que nascemos há apenas nove dias. Uns velhos e outros novos, somos todos crianças a colorir folhas em branco. Estamos contentes, as janelas do tempo têm vista para o futuro, a porta da nossa vida está escancarada e os caminhos estão desobstruídos. Penduramos o novo calendário na parede e por tudo ser ainda tão distante, sentimos que temos a vida em aberto. É tão bom ter a vida em aberto, estudar hipóteses, escolher rumos, tomar decisões, poder optar, não se entregar ainda definitivamente a nada. É tão agradável comprar uma agenda nova e ir preenchendo os dias de coisas boas. Os aniversários da família, o dia dos namorados, um jantar com amigos, o início das férias, uma viagem. O ano novo é sempre tão confortável, deve ser da roupa nova e dos perfumes que nos deram pelo Natal. Quando regressamos ao trabalho há sempre gente com roupa nova e perfumes novos. Aliás, as pessoas até parecem todas mais novas, mais disponíveis, mais alegres. São novamente crianças a brincar com o tempo. Apesar de já se terem despedido de filhos, pais, avós e netos que foram para longe, os homens e as mulheres ainda têm sorrisos nos lábios e rostos descansados. Beijam-se, desejam um bom ano e sentem-se em harmonia uns com os outros. O ano novo, coisa para durar para aí uns quinze dias, é algo de mágico. É um coração ao alto. Um encantamento. Um brinquedo novo. O primeiro amor.
Só temos nove dias de idade. Por enquanto ainda ninguém quer saber que em cada ano a vida dá uma volta de 365 graus.

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