Recuperar a confiança

Quinta-feira, 8 Janeiro, 2015

D. António Vitalino Dantas

Bispo de Beja

A época de Natal e o início de ano civil, mesmo para quem não professa nenhuma confissão cristã, desperta nas pessoas e grupos da nossa sociedade uma grande nostalgia pelo agregado familiar e abre feridas profundas nas pessoas quando faltam manifestações de proximidade e afeto entre os seus membros. Nas diversas festas de Natal em que participei, em lares e instituições, vi muitas lágrimas nas faces rugosas de vários idosos, ou porque perderam recentemente alguém da família ou porque não tiveram nenhuma manifestação de carinho por parte dos seus familiares.
Isto fez-me reflectir uma vez mais sobre a estrutura relacional do ser humano, apesar da afirmação crescente do individualismo e relativismo reinante no mundo atual. Há em todos os seres, e muito especialmente nos humanos, uma necessidade de múltiplas relações, que exigem muita atenção e cuidado para não serem defraudadas e levarem a uma desilusão profunda e à solidão insuportável. Isto significa que precisamos de curar muitas feridas e recuperar a confiança uns nos outros, nas instituições sociais e na própria família.
Como curar estas feridas, para estabelecer um clima de confiança à nossa volta? Sem pretensão de apresentar nesta breve nota todos os remédios, vou apontar alguns, que nos podem ajudar a viver um ano com mais alegria e esperança, apesar das imensas dificuldades com que nos deparamos na construção do nosso bem-estar.
Em primeiro lugar, temos de fazer o nosso exame de consciência, pois muitas das causas da desconfiança estão em nós mesmos e os remédios também ao nosso alcance. O Papa Francisco fez uma parte desse exame no discurso aos membros da Cúria do Vaticano, a 22 de Dezembro, apontando um elenco de 15 pecados ou deficiências que nos impedem de exercer com alegria e eficiência a missão da Igreja, e não apenas os colaboradores do Papa. Não os vou repetir aqui um a um, mas resumi-los nas palavras amor e paixão pelo bem das pessoas, à luz da nossa fé em Jesus Cristo, que se fez um de nós e se entregou para a salvação de todos. Se temos fé em Deus, não podemos deixar de amar os nossos irmãos. De contrário, estamos a mentir, a dizer uma coisa e a fazer outra, temos dupla personalidade ou somos esquizofrénicos ou então sofremos de Alzheimer, perdemos a memória do que somos, da nossa dignidade.
Em segundo lugar, temos de reconhecer que sofremos de algumas deficiências, não somos perfeitos, nem sequer no cumprimento dos dez mandamentos, um código fundamental para a convivência humana pacífica. Mas também não desesperamos, porque nos sabemos amados por Deus apesar do nosso pecado e temos a possibilidade de implorar o perdão e de o conceder a quem nos ofendeu, como rezamos no Pai Nosso, a oração que Jesus ensinou aos apóstolos.
Em terceiro lugar, embora conscientes da liberdade do ser humano, que o pode fazer enveredar por caminhos de desencontro e também conhecedores dos meandros da nossa justiça, que tem dificuldade em desvendar o mistério do mal e da corrupção, não deixamos de acreditar nos homens de boa vontade e de criar laços de confiança, para que o trigo se fortaleça em relação ao joio, o bem prevaleça sobre o mal e a nossa sociedade se torne mais humana, justa, fraterna, livre e solidária.
Felicito as pessoas que fazem voluntariado nas nossas comunidades e instituições, dando uma parte do seu tempo e das suas vidas a visitar, apoiar e consolar aqueles que vivem sós e esquecidos da sociedade, isolados nas casas, nos hospitais, nos lares, nas prisões, etc. São os reis magos dos nossos tempos, guiados pela estrela do amor de Deus, que os leva até às grutas daqueles para quem não há lugar nas nossas estalagens. Neste sentido desejo um bom e abençoado ano a todos os diocesanos e pedimos a todos para que se deem as mãos, fazendo cada um o que está ao seu alcance para o bem daqueles com quem vivemos, sobretudo dos mais débeis.
Assim construímos a nova sociedade da confiança e também a nossa diocese em sínodo.

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