Memórias dum nascedio

Sexta-feira, 9 Janeiro, 2015

Fernando Caeiros

Ex-Presidente da Câmara de Castro Verde

Poderá um ténue nascedio despertar assim memórias dum outro tempo que justifiquem uma Moda e umas quantas linhas alinhavadas a partir de tal motivação? Fiquei na dúvida. Hesitei mesmo em activar o teclado e tentar discorrer um pouco em torno do assunto, procurando corresponder ao desafio que me foi lançado. Mas lá me decidi. Percorri algumas memórias de infância e juventude, quase que reencontrei a frescura daquela cristalina água que brotava do solo, noite e dia sem parar, desafiando as mais prolongadas estiagens. Vi moirais e mulheres lavadeiras. Vi jovens embezerrados saciar a sede depois de terem esgotado as reservas armazenadas num qualquer poço. Em dia de Sortes, vi mancebos acabadinhos de mergulhar nas águas do pego mais próximo.
E vi todos aqueles putos, em pelota, afinando os primeiros gestos de iniciação à natação ali, no pego comprido, no do moinho ferreiro, ou no da lontra (a aprender a banhar, como então se dizia), convivendo com as rãs e as libélulas, com os cágados, os bordalos, as pardelhas e as cobrinhas de água – no meio de nenúfares, bunhos e atabuas, mais atrevidotas e marotas estas, tocando a nudez da rapaziada.
Senti a Mãe d’Água numa combinação quase perfeita com os demais Elementos: o Ar, naquela maresia de fim de tarde, ajudando o padejar das favas que o seareiro debulhava na eira lá do alto, junto ao velho moinho de vento; a Terra, suada do calor e do labor dos ceifeiros que a dois passos enreleiravam os molhos atados na última margem; o Fogo, qual sol do meio-dia amadurecendo loiras espigas dobradas espreitando o horizonte.
Outros tempos duma época em que o tempo corria devagar, devagarinho e mansinho tal e qual a ribeira de Terges, onde o murmurar da água se confundia com o som do silêncio, em que o chilrear da passarada ecoava em todas as direções, ia para além do Santo Isidoro, competia com o toque do sino da igreja, desafiava as vozes dos ceifeiros e mondadeiras e inspirava a criação de novas modas (Olh’ó passarinho…, Lindo ramo verde escuro…, Oh águia que vais tão alta…). Tempo de trigueirões, flouchas, patinhas, algrevões e cagões a caírem desprevenidamente nas rateiras que por altura das sementeiras também povoavam pequenas parcelas da paisagem, muito à socapa, não fossem os homens da fatiota cinzenta descobri-las. Tempo de águias a danar os mais entusiastas da caça, num tempo em que as perdizes vinham batidas até às portas da vila e os galgos levantavam uma fantástica e leve poeira nas mais tresloucadas corridas atrás dum lebrão. Tempo em que o luar, as constelações e a brisa orientavam os churriões a caminho de tantos e tantos montes cheinhos de gente. Era assim: duas dúzias de almas na Caxia, uma no Montel, Castelo e Montes Grandes, e uma outra ali para a Carvoeira e o Monte da Fonte. E mais dúzias e meias dúzias em Albergaria, nos Merendeiros, no Vale da Sarna e tantos outros.
Gente que tão bem exercitava os sentidos, todos os dias, ainda mais nos dias de festa na rua do monte ou de arraial no largo da vila. Um delírio e um deleite para as vistas, aquelas chapadas pejadas de soagem, margaça, pampilho e tantas outras plantas silvestres numa mistura de cores espectacular, qual paleta dos melhores mestres. Depois, vêm os sabores, únicos como os do poejo e da hortelã da ribeira associados a odores fantásticos que rivalizam com aqueles cheirinhos provocantes como os dos montrastos. O tacto, esse experimentava-se na frescura da água quando faltava o cocharro, ou então no toque dos dedos entrelaçados à volta de um mastro sob o olhar, ora cúmplice ora crítico, da emproada charola que lá muito do cimo ostentava aquele ar de uma dessas virgens que adornam os andores em dias de procissão. Por fim, os ouvidos – ouvidos que oram diante das vozes arrastadas e dolentes dos homens, que dançam ao som da flauta de beiços que anima o mastro e acompanha as cantigas mais ousadas das jovens, que cantam no meio do chilrear dum pintassilgo, do balir duma campaniça tresmalhada ou até do coaxar da rã que se espraia no regato que sai da fonte, como que em despique com um grilo ralo.
Não dei por quaisquer resquícios do sangue derramado pela moirama que a montante teria tingido Terges e Cobres na voz do Poeta maior. Mas senti o amargo das lágrimas das mães sem uns réis para matar a fome, vestir e calçar os filhos. Senti o sal da terra na cor do suor de ceifeiros, almocreves, mondadeiras e pastores, labutando de sol a sol em troca duma baixa jorna por vezes mitigada com umas comedorias. Vi gente, homens e mulheres de mãos calejadas e tez bronzeada, sem sinais de raiva a correr-lhes nas veias que não na rugosidade do rosto, moldados no corpo e na alma, muito à imagem e semelhança de um meio, duma paisagem, de um ar e de um céu que, se inventados, dir-se-iam: divinos.
Um destes dias, quando as vozes das cantadeiras entoarem aquela moda da Fonte do Linhas, ainda vou contar, não sei bem a quem, talvez aos meus filhos, aos nossos filhos, algumas das histórias do tempo em que da terra brotava, muito suave e silenciosamente, aquele fiozinho de água que esconde dentro de si um pouquinho das nossas melhores memórias – o tal tempo de um tempo que não torna a vir.

Texto escrito para o CD “Chão”
do Grupo Coral “As Ceifeiras” de Entradas.

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