Património & Cultura

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Rodeia Machado

técnico de segurança social

Dois acontecimentos importantes marcaram a vida da nossa cidade, do nosso concelho e, porque não dizer, do Alentejo, em nome daquilo que é o nosso passado a nossa memória. Refiro-me concretamente à criação da Associação “Portas do Território” e à inauguração do Monumento à Mulher Alentejana.
A criação da Associação “Portas do Território”, uma parceria extremamente importante e oportuna, entre a Câmara Municipal de Beja e a Diocese de Beja, cuja função principal é manifestamente a defesa do património legado pelos nossos antepassados, que são o registo edificado, daquilo que nos marca enquanto povo, marcas da nossa cultura, sentimentos da nossa identidade e das culturas que ao longo de séculos fomos absorvendo.
Multiculturalidade dum povo que soube dar e receber.
Essa parceria entre a Câmara e a Diocese, aberta a outras participações (públicas ou privadas), vai naturalmente contribuir para que possamos dar a conhecer a quem nos visita e também aos habitantes de Beja (sim porque muita gente não conhece) este património edificado. E para além disso, vai procurar criar condições do ponto de vista financeiro, nomeadamente nas candidaturas ao QREN – Quadro de Referência Estratégico Nacional, para a recuperação de alguns espaços que necessitam de uma boa recuperação.
Que bela atitude esta da nossa autarquia e da nossa Diocese.
A segunda questão, ou se preferirem, o segundo acontecimento tem que ver com o Monumento à Mulher Alentejana.
Este monumento, fruto da persistência de um homem, que muito respeito, o João Honrado, que ancorado na Cooperativa Cultural Alentejana (da qual tenho a honra de ser cooperante) levou a efeito, sob a batuta do artista Rogério Ribeiro, que o concebeu, um Monumento à Mulher Alentejana assente, naturalmente, naquilo que é também a nossa memória colectiva, a memória das operárias e camponesas que nos campos do Sul não se vergaram ao patronato e conseguiram, junto com os seus companheiros, ganhar a luta pelas oito horas de trabalho diário.
Nele ficarão indelevelmente marcadas as jornadas de luta, mas também as praças de jorna onde eram escolhidos os trabalhadores rurais, por aqueles que aqui mandavam. Sim, porque homens e mulheres tinham e têm a mesma luta por condições melhores para si e para os seus.
Dessa memória colectiva faz parte integrante, como uma força da natureza, essa mulher que marcou os campos do Alentejo e cujo sangue semeou nesses tempos a seara da liberdade, que havia de nascer na madrugada do 25 de Abril de 1974. Refiro-me naturalmente a Catarina Eufémia, a camponesa de Baleizão assassinada pela PIDE.
É bom lembrar hoje, em monumento perpétuo, aquilo que não se esquece na memória de muitos, mas que outros no momento presente procuram fazer esquecer.
É preciso ter memória, que o mesmo é dizer, é preciso ter coluna vertebral para não ceder perante as fortes pressões que hoje se colocam nesta sociedade, que se quer moderna mas que não passa de velhas atitudes passadistas contra aqueles que procuram ser e são coerentes com as suas atitudes, na defesa da nossa memória, do nosso passado, e que lutam por novas políticas que resolvam e vão de encontro às reais necessidades da população.
Honrar a nossa memória colectiva é manifestamente um acto de inteligência e de respeito por aqueles que num passado longínquo ou mais recente nos legaram uma importante história.

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