Palavras

Quinta-feira, 19 Junho, 2014

Vítor Encarnação

A primeira repetição de sons é a tentativa inicial de compreensão daquilo que nos rodeia. Rasteiros, do tamanho de mesas, aos tropeções, ficamos ávidos de sílabas e ditongos. Quando somos pequenos e descobridores, o mundo atrai-nos para a sua multiplicidade de sentidos. E os vocábulos não nos largam mais. Multiplicam-se por muitos mil. Acordamos com uns e deitamo-nos já com outros. E tornamo-nos coleccionadores de palavras. E não deitamos nenhumas fora e elas não nos pesam. Tiramo-las de ouvido, arrancamo-las dos livros. Primeiro o nome, a idade, a família, a rua, depois a cidade ou o campo e depois os países e o mundo. E se não nos ficarmos pela insuficiência daquilo que é básico e primitivo, a seguir vem a abstracção, a poesia, os conceitos filosóficos e políticos, a tese, a metafísica. Tudo palavras, e o que está dentro delas, que não sabíamos à partida de nós próprios.
Mas há uma altura em que acordamos com umas palavras e à noite já não nos deitamos com elas. Perderam-se no absurdo do dia. Não resistiram a mais um sol-posto. Umas perderam o valor, outras ficaram ocas. De umas tantas nem nos despedimos. Invertemos o destino da comunicação. Calamo-nos. Somos ridículos aprendizes do silêncio. Repetimos o silêncio. Imitamos o vácuo.
Já sem nada para dizer, ouvimos o passado a arranhar as paredes do tempo e os gritos de dor das palavras fechadas na impossibilidade das bocas.

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