Os Resquícios do Império

Sexta-feira, 6 Agosto, 2021

Napoleão Mira

Escritor

Tive de ir a Londres por um motivo de força maior. A minha filha mais nova que aí vive decidiu casar e, era o que faltava, que eu e a minha mulher a tal evento não pudéssemos comparecer. Pudemos! Mas à socapa, infringindo a lei e que foi uma carga de trabalhos… lá isso foi.
O engraçado no meio disto tudo é que o ser humano a tudo se habitua. Estava eu a remoer comparações com este e outros tempos, quando dou por mim a pensar que caminhamos para uma espécie de cadafalso burocrático e informático de cada vez que pretendemos viajar.
Aqui há trinta e tal anos, quando um estrangeiro pretendia prolongar a sua estadia, colocava o seu bilhete de avião à venda no mesmo bar onde habitualmente consumia cerveja e alguém o haveria de comprar e viajar em seu nome.
Eu próprio, quando vivia em Tenerife, o cheguei a fazer sem qualquer tipo de constrangimento e, no Algarve, vi-o acontecer vezes sem conta.
Era no tempo em que as companhias aéreas nos diziam que chegar ao aeroporto com 30 minutos de antecedência era mais do que suficiente, especialmente para quem viajava sem grandes bagagens.
Pois bem, regressemos a 2021 e à minha viagem a Londres.
Bem sei que vivemos em tempos de pandemia e que todos os cuidados são poucos, mas ser razoável também deveria fazer parte da condição humana.
Quando planeámos para lá viajar começou o calvário das obrigações e das complicações. Apesar das passagens serem baratas, toda a operação de salvaguarda da saúde de cada um é um autêntico quebra-cabeças, começando nos testes antivírus que temos de fazer cá e depois lá, sendo que lá um teste PCR custa 150 libras, o triplo do bilhete de avião (sic!)
Antes de partir, somos advertidos com alguma insistência da necessidade de estar no aeroporto cerca de três horas antes da partida, o que na verdade não se verificou ser necessário, pois o aeroporto quando aí chegámos se encontrava praticamente vazio.
Ainda em Portugal, somos avisados que, apesar de em Inglaterra se celebrar a liberdade, de os ajuntamentos serem permitidos nas ruas e praças, nos estádios e restantes recintos desportivos, de os bares, restaurantes e discotecas estarem a bombar a toda a força, nós, os cidadãos vacinados vindos de Portugal e de nacionalidade portuguesa, com certificada internacional que o atesta, com teste negativo, somos obrigados a fazer uma quarentena obrigatória, com vigilância telefónica e possível rastreio pessoal, como foi o caso e, a ameaça de pagamento de uma multa de 10.000 libras caso se prevarique. Enquanto que, os passageiros ingleses, vacinados ou não, podem sair do avião e ir direitinho ao pub degustar uma Guiness sem qualquer problema.
Se isto não é descriminação, então não sei o que será!
Outro contra-senso destes governantes é que nos obrigam à tal quarentena vigiada, mas para fazer os vários testes (um ao segundo dia e outro ao oitavo, caso a estadia seja de 10 ou mais dias) e pagar os tais 150 libras por pessoa e por teste já podemos sair de casa, percorrer meia cidade em transportes públicos atafulhados de gente que, ao que parece, o vírus vindo lá dos confins da Europa, faz uma folga para que possamos largar “300 paus” de cada vez.
Aí pelo terceiro dia, apareceu-nos à porta um desses zeladores à procura da minha mulher. Felizmente estávamos em casa e tudo decorreu sem grandes sobressaltos. De outro modo, tinha sido o cabo dos trabalhos.
Um amigo meu escocês, que tem os ingleses pelos cabelos desde há muito, chama-lhes: Gestapo da COVID.
Bem sei que não tenho formação académica para rebater certas decisões. Conto apenas com a minha noção de lógica, com um cérebro e dois olhos para comparar em termos de reciprocidade como são tratados ingleses em Portugal e portugueses na Inglaterra.
Os resquícios do império de quando em vez ainda se fazem sentir.
Apenas desejo uma coisa. Agora que já casei a minha filha, por favor: Tirem-me deste filme!

PS: Já depois de chegado a Portugal, ainda me telefonaram duas vezes para me controlar. Da última, não me contive e mandei-os a uma parte que se faz com a quinta pata do cavalo de Napoleão.

PS1: Já depois desta crónica estar escrita, chega-me a notícia de que os cidadãos portugueses deixaram de estar obrigados à fatídica quarentena. Estou como se diz por terras de sua majestade: ‘speechless’!!

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