Fruto de uma doutrina, por força legal e por imposição de uma retórica que os apontou como sendo uma das classes mais privilegiadas e mais dispendiosas do país, com longuíssimas férias, com pequeníssimos horários laborais e aproveitadores de incontáveis vantagens, de uma situação de importante e inquestionável relevo social enquanto construtores de cidadãos plenos, com tempo, autonomia e autoridade para o fazer e merecedores de respeito, os professores passaram a ser entendidos como meros operários de uma linha de montagem de sucesso educativo e dóceis, obedientes e acríticos executores de uma ideia política para a educação deste país.
E o que é um facto é que esta narrativa pegou de estaca e rapidamente os professores se tornaram culpados da derrapagem, passada, presente e futura, do orçamento e pela ausência de princípios e valores das novas gerações.
Alguém ajuizou e disseminou essa conclusão, que para tão improdutiva e onerosa função não eram necessárias tantos privilégios e tanto crédito social.
E legislou-se e despachou-se para acabar com tal dislate. E as pessoas que adoram bodes expiatórios aderiram à mensagem.
A sala de aula enquanto espaço privilegiado, incontornável e absolutamente necessário para a relação de ensino-aprendizagem, deixou de ter a primazia e foi substituída por inúmeras funções burocráticas e administrativas, muitas delas de utilidade e eficácia dúbias. Para responder a questões sociais, económicas, culturais, disciplinares, acrescentaram-se deveres que muitas vezes anulam o verdadeiro propósito das escolas, não porque essas questões não sejam importantes, mas porque cada turma tem uma panóplia de problemas que, a serem resolvidos no espaço de uma aula de cinquenta minutos, põe em causa a transmissão e a aquisição de conhecimento. E quando a sala de aula, ao mesmo tempo, vezes vinte ou trinta alunos, várias vezes ao dia, tem de ser escola, casa, família, recreio, loja de telemóveis, gabinete de psicólogo, alguma coisa falha. E falhou, o resultado está à vista.
Não sei se haverá outra profissão em que um trabalhador possa estar a contrato durante mais de vinte anos, de casa às costas, com filhos atrás, pagando duas casas, ou três se for um casal de professores contratados, sem ajudas de custo, tapando buracos, percebendo vagamente os projetos educativos, incapazes, por falta de tempo e de cabeça, de entender e assumir a identidade de uma escola ou de um agrupamento. Ao contrário do que se faz com outras classes profissionais com mais crédito junto da sociedade, ninguém quis saber, ninguém cuidou destes professores. O resultado está à vista.
Concluiu-se também que os professores não querem ser avaliados para que não se descubra que são o que muita gente acha que são: uns palradores que debitam e ditam umas coisas. O que está em causa é o modelo de avaliação, que por profusão de alíneas, condições e artigos, tem vindo a condenar milhares e milhares de docentes a uma estagnação nas suas carreiras. Nesta avaliação, o que é igual deixa de ser igual e o mérito dependerá sempre de um conjunto de fatores arbitrários, contrariando muitas vezes o consagrado no estatuto da carreira docente. Quando o que é igual deixa de ser igual, o resultado não se percebe. E o resultado está à vista.
Quando se trabalha um largo número de anos com base em leis perfeitamente definidas e em pressupostos claros, não é compreensível que aquilo que devia ser conjuntural, tal como inicialmente definido, passe, por decisões de política financeira, a ser estrutural e definitivo. Perder o direito ao tempo que se trabalhou não é aceitável, é apenas um artifício incompreensível e o resultado está à vista.
Quando se esquece que atrás de tempo tempo vem, quando se olha apenas a curto e médio prazo e se descura a renovação e nada se cria para tornar a profissão atrativa, não é difícil imaginar que num futuro próximo faltarão professores. A fatalidade está à vista.
Quando toda a atividade dos professores tem de ser constantemente monitorizada, justificada, evidenciada, provada e registada através das mais variadas formas, quando esse processo é um fim em si mesmo e nem sempre é dínamo de uma mudança, há uma sensação de pressão contínua, gratuita e claramente escusada. A falta de objetividade, a ausência de uma razão que se perceba, ofende a dignidade e o resultado está à vista.
Poderão mais de cem mil professores estar errados nas suas reivindicações? Poderá tanto profissional ser irresponsável ao ponto de fazer greve por prazer ou por capricho? Será possível que esta imensa massa humana faça tábua rasa de todos os valores que ensina e só se esteja a preocupar com o seu umbigo? Poderá uma greve de mais de cem mil pessoas ser uma farsa e uma falácia? Poderá um tão grande número de homens e mulheres ser resultado de uma manipulação partidária ou sindical? Terão os professores sido acometidos de uma loucura coletiva?
Indo necessariamente além do eventual preconceito, o leitor deste texto, que de uma forma ou de outra será sempre familiar de um aluno ou de uma aluna, em consciência responderá.

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