Os eternos tempos de Portugal no mundo!

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Hélder Guerreiro

Querer juntar, num mesmo artigo de opinião, os memoráveis tempos de Portugal no mundo (os grandiosos passados e os repetitivos presentes) é um exercício demasiado difícil e que resultará muito mal, mas não resisto. Vamos lá!
O “Fontismo” ficou conhecido como um tempo de grande expansão nacional com fortes investimentos nas comunicações (estradas, ferrovia e portos). É após essa grande farra financeira (outras houve mas nem vale a pena falar nelas) que homens memoráveis como José Dias Ferreira e Oliveira Martins (respectivamente o chefe do Governo e o ministro da Fazenda) decidiram, porque o país estava de “tanga” (bancarrota para nós) implementar medidas duras desde a subida de impostos, corte no salário dos funcionários públicos, suspensão da admissão de funcionários, paragem das grandes obras e (nessa altura ainda possível) desvalorização cambial e, como entramos em incumprimento, não nos foi permitido aceder ao crédito (não nos emprestavam dinheiro).
Sendo a fonte deste parágrafo um email que andou a circular por aí não deixa de ser assim, já escrevi sobre isto noutro texto e a fonte era um livro muito interessante sobre os últimos 200 anos da nossa economia (que recomendo). Isto lembra alguma coisa?
A novidade neste parágrafo, pelo menos para mim, é que estes homens são também, respectivamente, bisavô de Manuela (Dias) Ferreira Leite e o tio-bisavô do actual presidente do Tribunal de Contas, Guilherme de Oliveira Martins. Se acrescentar isso ao facto de que os “personagens” do livro do Mário Soares acrescentam mais um século de serem os mesmos a dominar a politica nacional ficamos com um quadro que roça a monarquia no que concerne à gestão da coisa publica em Portugal. De tão pequeno que é o país até parece natural que tenha sempre sido governado pelos mesmos. Não é bom sinal pois não?
Neste Portugal no mundo, de permanentes tempos difíceis, vão-se dizendo que o parlamento tem vindo a perder os seus melhores parlamentares, os seus melhores oradores, os melhor informados e mais educados. Parece que os filhos do povo, finalmente, tomaram conta da política nacional e, assim, a gestão da coisa pública caiu nas mãos do povo. É uma completa ilusão porque a árvore genealógica dos nossos governantes desmente isso cabalmente!
Hoje temos os mesmos governantes, a mesma dívida, o mesmo crescimento económico, a mesma estratégia, as mesmas soluções e ainda nos surpreendemos com o “balanço do barco”. Talvez já não!?
No meio de tudo isto chegamos ao patamar de sermos convocados para discutir o Estado Social pelos mesmos que nos conduziram até aqui. Antes de ir por esta conversa quero apenas fazer uma ressalva – paremos com esta coisa de “Estado Social” e chamemos antes funções sociais do estado ou funções do estado ou estado (estado social já cheira a coisa bafienta e estática)!
O contexto em que somos convocados para esta discussão é difícil porque é no meio de uma crise económica, é injusto porque o quadro é de perda de direitos, é lamentável porque tem por base uma chantagem de quanto é que estamos disponíveis a pagar pelos serviços do estado, é deplorável porque tudo isto foi conduzido para chegarmos aqui sem argumentos, sem opção que não seja diminuir os direitos. Vítor Gaspar, porque Passos Coelho é um líder menor, está mandatado para iniciar a transformação do modelo social europeu no território chamado Portugal, com o cognome de o “bom aluno”!
A Direita parlamentar está histérica com a possibilidade de varrer do mapa estas coisas de pobres terem mecanismos de ascensão social ao seu dispor como a educação pública, o serviço nacional de saúde e uma segurança social protectora sendo que tudo isto está assente num modelo fiscal de carácter progressivo, ou seja há uma redistribuição adicional dos indivíduos que apresentam maiores rendimentos para os que apresentam menores rendimentos. O tal modelo social europeu!!!
A Esquerda, nos últimos dias, ficou histérica com este desafio/ convocatória para discutir o que considera indiscutível, ou seja o desafio de Gaspar "o nosso grande desafio é mostrar em Portugal o que é possível, quais são as funções do Estado que são prioritárias, quais são as funções do Estado que são financiáveis, qual é o custo que está associado com essas funções do Estado"!
A posição da Esquerda (num estranho e inédito momento de convergência) é não discutir o assunto e eu sinto, pelo que tenho aprendido na vida, que quando alguém não quer discutir um assunto pode ser por duas razões: não se sente capaz de discutir o assunto por se sentir menor na discussão ou por não conseguir controlar os efeitos/ decurso da discussão; não quer estar associado ou ser responsabilizado, de forma nenhuma, ao/pelo resultado final da discussão.
Realmente é mais fácil não querer discutir o assunto, ficará sempre capital de queixa pelo que a Direita vai fazer ao “Estado Social” e isso, aparentemente, colocará a Esquerda no normal patamar de rotatividade e de alternativa quando em 2013 tivermos que ir para eleições.
Mas eu tenho para mim que a dignidade da pessoa humana coloca-se como primeiro princípio ético, e nenhum outro princípio se poderá sobrepor ao da dignidade da pessoa humana. Defender isto é um dever e isso só acontece arriscando e dizendo (mesmo nas condições excepcionalmente difíceis que temos) presente no campo de batalha da “discussão” pública que vai haver sobre as funções do Estado!
O povo não é parvo, nunca foi! A pergunta é se o povo vai entender a ausência da Esquerda?

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