Um homem quando escreve um livro aspira, no fundo, a alguma forma de imortalidade. Não aquela dos mármores, com nomes e datas gravadas em bronze, mas a outra; a que se sussurra ao ouvido de quem lê, muito depois de já não estarmos cá.
Mas escrever um livro é também percorrer esse labirinto que se faz casa, cujas páginas se erguem como paredes onde cada frase é um corredor e cada silêncio uma porta entreaberta para a intimidade de quem ousou escrever.
Tenho um amigo escritor que me felicitou, com uma vaidade tímida, por eu ter lido duas vezes um livro seu. Dizia ele – e eu concordo – que escrever dói.
Não é uma dor romântica, dessas que se dizem bonitas; é uma dor funda, que às vezes morde e que poucas vezes consola. Causa mais sofrimento do que satisfação, e é uma dor com que temos de lidar sozinhos, no escuro do quarto ou diante da luz branca do ecrã, enquanto as palavras recusam obedecer. E, no entanto, somos também nós, os que escrevem, que conhecemos a única cura possível: continuar. Reescrever. Cortar. Começar de novo. É remédio amargo, mas o único que resulta.
Mas se escrever é dor, também é espanto. Um assombro que por vezes roça a magia. Porque o escritor é, inevitavelmente, o primeiro leitor de tudo o que inventa. E esse instante – o momento em que uma frase sai melhor do que o esperado ou quando um personagem respira pela primeira vez – é um prazer secreto, talvez o único que nenhum autor quer repartir com ninguém. Há quem escreva para ser lido, sim, mas todos escrevemos primeiro para descobrir aquilo que não sabíamos que sabíamos.
Escrever é também uma espécie de divindade doméstica. Uma teimosia criadora. Quando escrevemos somos, por breves instantes, deuses clandestinos. Erguemos versos, inventamos universos e às vezes até multiversos. Decidimos o destino de quem nasce da nossa caneta ou do teclado gasto: se são felizes ou infelizes, se vivem no alto ou rastejam no fundo, se amam, se odeiam, se sobrevivem ou se sucumbem. Somos nós que damos corpo aos altos e aos baixos, aos gordos e aos magros, aos ingénuos e aos perversos. Somos nós que mandamos matar e salvar, erguer e arrasar. Digam-me lá se este não é um atributo reservado aos deuses – ainda que deuses cansados, mortais e muitas vezes inseguros. E no entanto, por mais omnipotentes que pareçamos dentro da página, cá fora somos apenas humanos. Humanos que procuram no ato de escrever um eco qualquer que os confirme: que lhes diga que valeu a pena sentir, pensar, duvidar. Porque a escrita, essa sim, tem um poder estranho: transforma dor em sentido, silêncio em voz, caos em gesto.
Quem escreve tenta sempre organizar o mundo, mesmo que seja o seu próprio desarrumo. Talvez seja por isso que a promessa de imortalidade acompanha quem se senta a escrever. Não porque desejemos ser lembrados, mas porque intuímos que há qualquer coisa em nós que só se cumpre quando passa para o papel. Cada livro é uma tentativa de ficar, não como um monumento, mas como uma conversa prolongada no tempo, daquelas que continuam mesmo quando já saímos da sala. Escrever dói, sim. Mas também salva. E é nesse paradoxo, prazer e ferida, vertigem e cura, que a literatura encontra a sua força. No fim, quem escreve procura apenas o que todos procuram: ser escutado por alguém, um dia, em algum lugar. Mesmo que esse alguém ainda não tenha nascido.

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