O nome das coisas

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Paulo Barriga

jornalista

Já não digo quase nunca, mas o nome que as coisas levam em Beja nem sempre é o nome que as coisas costumam ter, de verdade. Quem diz as coisas, diz os sítios, as pessoas, os acontecimentos… enfim, diz a própria cidade e as suas particularidades sociais, que por cá têm o meigo nome de porras ou charengas. Por certo que esta tendência para o rebaptismo, para a múltipla nomeação, não é um tique exclusivo de Beja. Mas é nesta cidade que tal peculiaridade se manifesta com especial incidência em relação às coisas. No que respeita às pessoas, já nos ensinaram Ramos e Silva no seu Tratado das Alcunhas Alentejanas, ninguém bate a malta da Amareleja.É tudo uma questão de sociabilidade e de comunicação, dirão os especialistas atrás mencionados, é tudo uma questão de democratização linguística, de comunhão, de proximidade caseira. É pois! Qualquer estrangeiro que queira gastar dinheiro mal gasto fará compras no Modelo, qualquer bejense que se preze e ame a sua cidade esturrará o estúpido do ordenado mínimo no Prisunic. Em Beja subsiste uma rara tendência para a ortodoxia da nomeação. Um nome hoje, uma firma, um chamadouro, um ruído que valha, para toda a vida será. É assim que este povo tem sido educado e é assim que ele gosta de ser. Por isso a Universidade Moderna nunca deixou de ser Hospital Velho, por isso o Hospital continua a ser Novo ainda que esteja a cair de velho.O substantivo (desculpem mas não tive oportunidade de consultar a nova TLEBS para me certificar se tal ferramenta ainda existe na nossa gramática) é uma coisa que o bejense leva muito a peito. Uma vez atribuído, expresso, falado, não há como apagá-lo. É uma mancha pegajosa e persistente, a primeira graça que se dá às coisas (graça também uma porra muito pegajosamente nossa). E por ela, pela graça, não conseguiu D. Manuel I extinguir a Escola Comercial e Industrial, nem Diogo Gouveia o Liceu, nem o poeta Beirão o Ciclo, nem a Ministra da Educação o Patronato, nem o Tratado de Bolonha o Magistério. Este último nem com a ajuda da GNR.Aliás, pela força então é que não há mesmo nada a fazer. Os comerciantes já ataram uma corda ao pescoço, mas ainda há uma Rua das Lojas; a electricidade vem da Espanha mas a gente ainda a compra na CEAL; nem com a ajuda dos buldozers do Programa Polis o raio do Diogo Fernandes deixou ter nome de Bacalhau. Pela força, acreditem, não há nada a fazer. A Câmara percebeu isso e tem andado a repor a verdade nominativa das ruas retomando em legenda o seu nome primogénito. Aliás, outra vez: quando depois do 25 de Abril construíram em Beja o primeiro bairro de habitação social deixaram-no, inteligentemente, ficar por aí – Bairro Social. O povo tratou de o transformar em Bairro dos Índios, o bairro que se seguiu chamou-se, necessariamente, Texas e, há falta de imaginação, o terceiro ganhou o nome do taberneiro mais próximo: João Barbeiro. Na ausência de taberneiro fez-se um bairro próximo ao cemi-tério que levou a alcunha de Mira Mortos.Isto no que respeita aos pobres. Já a casa dos ricos e dos remediados recebem os nomes dos construtores: Lara, Vilhena, Cabrita, Leão e outros bichos que agora não me ocorrem. Quando a construção entrou para a bolsa, e para não se perder a tradição, fez-se o bairro de vivendas da BETOFER. Extinguiu-se a mania porque começou a haver muitos bairros da BETOFER. Para breve está agendada a inauguração de um bairro no preciso local onde havia um aterro sanitário e barracas de lata. O construtor deu-lhe o nome de Colina do Carmo, mas eu já ouvi falar em Esterqueira.Na Rua da Casa Pia, instituição que ardeu há perto de 40 anos mas cujas chamas nem chamuscaram o nome da rua, havia uma taberna que era de um homem chamado Alhinho: a Taberna do Alhinho. Ali se fez vinho anos a fio e se bebeu o vinho todo, anos a fio. A coisa depois correu mal com os palhetes e a casa fechou. Um belo moço e belo músico e belo amigo chamado Benvinda comprou a taberna e pôs lá um palco e deixou ficar o vinho e o balcão e as talhas e a pia rasa e os petiscos. Ou seja: inaugurou o mais inteligente e interessante buraco que a noite de Beja conheceu nos últimos vinte anos. Mas cometeu um erro assinalável, deu-lhe o nome de Galeria do Desassossego e eu nem lhe dou quinze dias para que lhe voltem a chamar Taberna do Alhinho. Ainda assim, Benvinda!

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