O meu tio Joaquim Algarvio

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Napoleão Mira

empresário

Tenho um primo que ia namorar a cavalo. Subia a avenida de Nossa Senhora da Esperança, em Entradas, a galope e a trote os largos degraus em forma de passeio, fazendo menção de entrar casa dentro montado no imponente equídeo de modo a impressionar a sua amada.
Eu, pequenito, admirava-o por isso, era uma espécie de herói, assim como que o que eu queria ser quando fosse grande.
Depois foi para a marinha e ainda mais impressionante ficou. Imaculadamente de branco fardado, montado na sua Norton de 600 cavalos, sempre os cavalos a dominarem a sua vida, mesmo que imaculadamente vestido de branco. E namorava a minha prima que era professora regente e usava óculos. Gosto mais das professoras regentes do que das professoras oficiais, mas não me perguntem porquê; não saberia responder, é apenas uma tendência, um gosto, se calhar gosto mesmo só do nome: regente.
Estamos no Verão, daqueles Verões alentejanos que queimam olhos e vidas e deixam na pele a visível marca da sua passagem. Meu tio Joaquim Algarvio puxa de duas cadeiras, uma grande para ele e uma mais pequena para mim, rapa de uma onça de tabaco, retira duas mortalhas Zig-zag e enrola dois cigarros, um grande e um pequeno. O grande é para ele e o pequeno é para mim. Ele terá cerca de 40 anos, eu pouco passo dos quatro. Puxa do isqueiro a gasolina, acende o dele e a seguir acende o meu, traça a perna e diz-me para fazer o mesmo, e ficamos ali, sentados à sombra, fumando e vendo a vida passar, ele o cigarro grande, eu o feito à minha dimensão.
Tenho quatro anos e ouço ao fundo o ruído do galope do cavalo do primo Manuel Madeira, minha prima Felicidade, fazendo jus ao seu nome, também o deve de ter ouvido e em gritinhos de quem sente borboletas na barriga, espera ansiosamente o seu cavaleiro andante.
A sombra já desceu vagarosamente os degraus, até já engoliu uns metros da avenida, sinal que já passa das seis. Minha tia Francisca, mulher de meu tio Joaquim Algarvio, chama-nos para dentro, para lanchar.
O cheiro daquela cozinha ainda hoje me persegue. É sexta-feira, dia de cozedura, o perfume que o pão exala preenche-me os sentidos. Minha tia acaba de fritar carapaus, dos mais pequeninos, jaquinzinhos, carapau do gato, como eram chamados.
A cozinha é interior, a luz que recebe vem através da telha de vidro, meu tio senta-se no foco dela e dá-me a sensação de que é um iluminado.
O café acabadinho de fazer, os carapaus acabados de fritar, o pão acabado de cozer e eu acabado de ser feliz, olho o meu tio como se olhasse para um deus. Conta-nos “partes” umas atrás das outras, minha tia, ocupada com tantos afazeres, não tem tempo para as desmentir a todas e assim este contador de histórias, enrolador de cigarros, semi-deus debaixo da luz da telha de vidro num dia de Verão de escaldar, marcava o destino deste menino que resolveu escrever acerca desse dia talvez cinquenta anos depois.
“Fume já o meu filho que é para parecer um homem”, dizia o meu tio depois de regressarmos à fresquidão da rua. Eu que nem criança era e o meu tio a querer que eu parecesse um homem!
E o meu primo montado no seu corcel a desaparecer ao cimo da rua. Primeiro, o desenho imponente da figura que os dois descreviam; depois, o ruído musical das ferraduras contra as pedras da calçada em compasso acertado a esvaecer, assim como quando baixamos o volume do rádio.
E eu era tão feliz com estas pequenas coisas!

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