O castigo dos portugueses

Sexta-feira, 15 Maio, 2015

José Velez

Vice-Presidente da Câmara de Beja

Concordaremos todos, à partida, que não pode haver governo que não queira o melhor para o seu povo. Acreditamos todos que não deve haver ministro que não tente fazer o melhor pelo seu ministério e para as áreas que lhe estão confiadas. Esperamos todos que não haja chefe de governo que não lidere e coordene todos os ministérios, de forma competente, racional e integrada. É ponto assente que o principal objectivo de qualquer Presidente, tal como qualquer governante, é servir o país e, particularmente, as pessoas que o compõem.
Num país desenvolvido, o exército, as polícias, embora sendo “meios” de respeito e dissuasão, servem sobretudo para defender os cidadãos, prevenindo infracções, vigiando o cumprimento da lei e, só em último caso, usarão a coacção e a força para os incumpridores. O fisco é sobretudo um sistema tributário e solidário, nunca um capataz ou algoz insensível com o objectivo primordial de penalizar e extorquir dinheiro às pessoas. Quanto mais pobres forem as pessoas, mais pobre é o país, quanto mais infelizes forem os cidadãos, mais sombrio e triste será o mesmo país. Já em Portugal, a visão é outra… Premeiam-se os funcionários tributários por conseguirem mais impostos ou, traduzindo, por conseguirem extorquir mais dinheiro a pessoas e empresas! Ainda que de acordo com a lei, ainda que parte dos impostos obtidos sejam justos, a forma é, para além de provocatória e deselegante, terceiro-mundista! Se os funcionários não ganham o suficiente ou o justo, assuma-se então o seu aumento de vencimentos, de forma transparente e civilizada. Agora à conta de mais impostos…Então e os outros funcionários públicos? O fisco é mais importante que a Saúde, a Educação ou a Justiça?
Uma sociedade só pode ser justa e evoluída quando os princípios democráticos e humanistas forem o esteio da sua existência. Não se quer acabar com a riqueza, mas sim erradicar a pobreza; não se quer o enfraquecimento dos mais fortes, mas a protecção dos mais frágeis; não se pretende o “igualitarismo”, mas sim a igualdade de direitos e oportunidades. Foi para isso que foi declarada a “Carta Universal dos Direitos do Homem” ou que surgiram entre nós o Serviço Nacional de Saúde, a Escola Pública e o Estado Social. É crime ou pecado querer ter mais conforto, mais educação, melhor saúde ou mais cultura? Então que mal fizeram os portugueses para terem de ser castigados? Porque têm de “sofre, sofrer”, “aguentar, aguentar”, “custe o que custar”? Um contrato assinado pelo Estado com um seu concidadão vale menos do que o contrato assinado com um banco ou com uma grande empresa? Um contrato de trabalho com um português tem menor valor jurídico que o contrato assinado para uma PPP? Bom, se temos de ser castigados pelos erros, muitos dos quais impostos pelos mercados e por essa Europa que se perde nos meandros da ditadura económica e financeira do Norte, ou do cinismo da “alta finança”, então a Alemanha, de entre outros, teria castigo perpétuo face ao horror e ao caos que provocou nas Grandes Guerras. Os grandes culpados da crise financeira de 2008, os bancos/instituições financeiras envolvidos, teriam de ser banidos da sociedade, mas não, até foram ajudados! Será então o cidadão comum, o grande responsável por enganos, desmandos, exageros, especulações e políticas erradas implementadas?
Temos então um Governo que segue as ordens dos mais fortes, sem lutar nem sequer protestar. Temos um Governo que teimou em ser o aluno exemplar e que foi perdendo o sentido de solidariedade e de amor-próprio. Dirão que é legítimo admirarmos o bom aluno. Todavia, quando ele se mostra bajulador do professor, recusa ajudar os outros e vai até ao ponto de denunciar os colegas… A admiração transforma-se em ódio, ou pior, em desprezo! Não acredito que o nosso Governo queira mal aos portugueses, mas estou cada vez mais certo que não estava preparado para governar. Optou por tentar ser o bom aluno, por estar ao cómodo serviço dos mais fortes e foi presa fácil do seu poder. Foi e é incompetente, sem dúvida. Mas infelizmente é mais que isso. É desconhecedor do que é a vida, o dia-a-dia das pessoas, do seu sofrimento e dos seus anseios; seguiu o caminho da obediência e dos números, incapaz de se impor pela inteligência e pelos princípios nobres da política. Os resultados são por ora maus, mas no futuro poderão ser devastadores. Já perguntaram ao senhor primeiro-ministro quanto custa ao país e às famílias formar um médico, um engenheiro, um professor, um enfermeiro, um advogado, um economista? E falo apenas em dinheiro, não contabilizando a saúde, os sacrifícios, as emoções ou o futuro! 50.000 euros? 100.000 euros? Mais? Agora multipliquemos pelos 200 ou 300 mil que abandonaram Portugal nos últimos três ou quatro anos. Fizeram as contas? 20.000, 30.000 milhões de euros? Mais? Mas o pior está para vir. Com estes jovens quadros, de reconhecida qualificação, foram também outros, não formados superiormente, mas com grande espírito de luta, força de vontade e empreendorismo. Ao contrário dos Anos 60 e 70, abalam os mais aptos, mais qualificados e, infelizmente, com enormes probabilidades de nunca mais voltarem. Podemos estar a assistir ao início dramático da hipoteca do futuro de Portugal, para a qual não haverá empréstimos nem baixa de juros que nos possam valer para a resgatar! Não falamos dos anéis, estamos a falar dos dedos e dos neurónios!
É com enorme tristeza que vejo o meu país despojado dos seus principais valores. Os anéis, ou melhor, a PT, os CTT, a REN, a EDP, a ANA… Um país vendido ao desbarato, porque a “troika” mandou ou porque sim! Dos anos do Vasco Gonçalves, das nacionalizações selvagens, porque tudo o que era privado era mau, passamos ao inverso, às privatizações selvagens, porque tudo o que é público é mau! Mas ainda falta qualquer coisa, após as tentativas falhadas da RTP e da CGD, vem aí, vergonhosamente, a TAP, em força, a qualquer preço e já, antes que mude o governo e apareça alguém que estrague o negócio, contrarie as directrizes ou os interesses dos chefes ou sabe-se lá de quem mais! A seguir virá talvez a água…pelo menos o Oceanário já está na lista!
Lembro líderes partidários, em plena campanha eleitoral, prometendo não aumentar os impostos; constato agora a sua impreparação para governarem. Mas é ainda possível ficar mais agoniado? É! Quando ouvi Passos Coelho aconselhar os mais jovens a emigrar, verifico agora que não foi por engano ou por mera incompetência, mas por convicção! Quando ouvi a ministra das Finanças vangloriar-se de ter os cofres cheios, não foi por excesso ou lapso, mas por quase sádico deleite. Quando ouvi o novel ministro da Economia tentar achincalhar o então edil lisboeta pelas taxas propostas às chegadas ao aeroporto, esquecendo o abuso das taxas impostas pela agora ANA privada, não foi por calor político, mas por puro chauvinismo de defesa de tudo e apenas de tudo o que é privado. Quando ouvi o então ministro Portas demitir-se irrevogavelmente, para depois ser promovido a vice-primeiro-ministro, não foi por ética política, mas factualmente por ânsia de mais protagonismo e poder. Quando ouvi, há anos, Aguiar Branco criticar severamente o então deposto Santana Lopes, sem nunca o ter feito enquanto pertencia ao seu governo, vejo agora que não foi por altruísmo ou mea culpa, mas por abandono rápido do navio e quiçá, voltar a ser ministro. Quando vejo e ouço a ministra da Justiça (tal como os colegas Crato, Maria Luís ou Núncio) culpar tudo e todos pelo escândalo ocorrido na justiça, esquecendo-se de si própria, a grande e primeira responsável política, compreendo melhor o estado cada vez mais preocupante da nossa justiça. Quando me deparo com o trabalho do ministro da Educação em menorizar e desvalorizar a Escola Pública, defender sem balizas o cheque-ensino, as turmas com 30 alunos, os mega-agrupamentos e o despedimento de professores e outros funcionários educativos, não é para melhorar os resultados pedagógicos, mas sobretudo por reconversão ideológica e, mais uma vez, pela defesa das ideias ultraliberais, dos números e da diabolização do sector público. Salvam-se apenas algumas honrosas excepções, pela consistência e bom senso. Há ainda outros, meras figuras decorativas, de lambreta, de traineira, debaixo dos chaparros ou em visitas de lazer ao estrangeiro, sem merecem qualquer referência. Mas foi a estas figuras que entregámos o leme do país. Para culminar, qual cereja no topo do bolo, um Chefe de Estado que assiste, seráfico, ultrapassado, assumindo a voz irritante duma razão que quase todos dispensariam e dispensam, indo ao ponto de afirmar que não afirmou o que afirmou a milhões de portugueses que o ouviram… Agora reconheço que a subida brutal de impostos, o desemprego, os reformados, os cortes salariais, a calamitosa emigração, a degradação da Justiça, da Saúde, da Educação e do Estado Social, podem não ser apenas, incompetência, consequências ou necessidades. Temo que sejam mesmo objectivos duma política convictamente seguida e enraizada numa verdadeira filosofia de punição e de empobrecimento, como alguns defendem, exigem e mandam.
São a esmagadora maioria destes senhores que sem nunca terem, trabalhado a terra, pescado uma sardinha, operado num hospital, erguido uma parede, ensinado a fazer uma letra, desenhado uma ponte, cavado debaixo da terra… ou passado por um Centro de Emprego, que teimam em punir todo um povo, resignando-se e humilhando-se aos mais poderosos, vergando-se ao poder financeiro, nem que para isso tenham de punir, castigar, até ao risco de sacrificar toda uma geração.
Afonso Henriques, Nuno Álvares Pereira, Camões, Eça, Pessoa, Florbela Espanca, Sophia, Amália, Eusébio, não esquecendo o bravo Viriato ou o sublime D. João II, não mereciam tal desrespeito! Valha-nos a verdadeira alma lusitana, lembremos a padeira de Aljubarrota e mantenhamos firme o verdadeiro espírito de Abril. Castiguemos então quem deve ser castigado e isso, em democracia, está bem nas nossas mãos!!!

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