Lembrar Abril

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Rodeia Machado

técnico de segurança social

Numa saudação que fiz na Assembleia Municipal de Beja, em meu nome e da Coligação Democrática Unitária, de que, como se sabe, sou seu porta-voz na referida Assembleia, considerei e considero como duas datas de referência, não só histórica mas sobretudo de mudança absoluta para a democracia do povo português, o 25 de Abril e o 1º. de Maio como afirmação dos trabalhadores portugueses.
Com efeito, o 25 de Abril de 1974 marca de forma indelével tudo aquilo que nós sonhámos durante os anos de ditadura. Uma ditadura que durou 48 anos e a que muitos se opuseram de forma evidente e que vincadamente pagaram em anos de prisão a sua ousadia, mas igualmente alguns perderam a vida para que todos pudéssemos ver essa madrugada libertadora.
Foi há 34 anos que sucedeu essa madrugada libertadora e que muitos de nós, ainda jovens, soubemos abraçar de alma e coração e participar nessa prova de cidadania, que foi desde os primeiros alvores de Abril, votar e ser votado para órgãos nas autarquias locais e no meu caso concreto, de ser eleito anos mais tarde deputado à Assembleia da República.
O percurso de homens e mulheres (de todos os quadrantes políticos) que se dedicaram à causa púbica, que o mesmo é dizer que, em nome da população, se disponibilizaram para desempenhar cargos públicos de responsabilidade, é manifestamente uma prova inequívoca da grande esperança que depositámos no 25 de Abril e em tudo aquilo que ele nos possibilitou.
“As portas que Abril abriu”, no dizer do poeta Ary dos Santos, foram efectivamente importantes para o povo português, pois passámos a ser reconhecidos internacionalmente, onde tínhamos perdido a credibilidade e finalmente concretizámos uma política de abertura à descolonização, com a caminhada para a independência das ex-colónias portuguesas.
Isso é reconhecido genericamente por todos, quanto aos aspectos da política dos três “D” protagonizada pelo Movimento das Forças Armadas: Democracia, Desenvolvimento e Descolonização.
Nos passados que são 34 anos da revolução de Abril, é preciso reconhecer aquilo que ontem na Assembleia da República foi patente através da intervenção do Presidente da República, ou seja, os jovens não conhecem a realidade do país no tocante à revolução, nem tão pouco ao seu desenvolvimento.
Não posso deixar de estar mais de acordo com o que é afirmado pelo Presidente Cavaco Silva quando diz que “a venda de ilusões” afasta os jovens da política. No estudo que é citado, elaborado pela Universidade Católica a pedido do Presidente da República, fica bem patente o desinteresse do jovens pela política Isto porque o apelo que é feito e as ilusões que são criadas, em nome de outros valores, afastam completamente os jovens da política.
Não é por acaso! A política seguida por muitos governos e governantes, ao longo destes 34 anos de democracia, condicionou de forma bem vincada a juventude portuguesa, afastando-a, por ausência de esclarecimentos, da política portuguesa.
Estou a lembrar-me, em particular, da ausência, em manuais escolares, de referência à política ou políticas de desenvolvimento, bem como da história política do que foi o período de 48 anos de fascismo, e quais as consequências nacionais (para o povo português) bem como as internacionais (para os povos indígenas das ex-colónias portuguesas), bem como da guerra colonial que ceifou a vida a cerca de 9000 militares nacionais e muitos milhares de africanos, incluindo populações indígenas, e matou a esperança de muitos jovens e outros que tiveram que se ausentar para o estrangeiro para fugir da guerra. Igualmente podemos dizer que, nesse período de miséria colectiva (apenas alguns senhores da terra e uns poucos milionários viviam bem), milhares de portugueses tiveram que emigrar para poder sobreviver.
Não podemos efectivamente esquecer esse período, embora alguns até quisessem recentemente retirar o “R” de revolução para ficar apenas evolução. Estou a referir o episódio protagonizado pelo PSD no tempo de Durão Barroso.
Neste, como noutros casos, a culpa não pode morrer solteira, nomeadamente nos períodos em que o PSD foi Governo durante 10 anos, mas também dos períodos em que o PS tem sido Governo, quer sozinho quer em coligação.
Mas não se pode igualmente deixar de responsabilizar aqueles que, em órgãos da comunicação social falados e escritos, verbalizam atitudes descredibilizadoras do 25 de Abril e contra quem, ao longo de 48 anos, lutou pela liberdade.
Pela minha parte, tudo farei para o lembrar, em cada dia que passa, não sob qualquer forma saudosista mas sobretudo de uma forma clara, objectiva e afirmativa, daquilo que o 25 de Abril representa para o povo português. Ou seja, a criação de uma sociedade livre e democrática, mais solidária e mais humanista.
A outra data, a do 1º. de Maio, reflecte, naturalmente, a luta dos trabalhadores por melhores condições de vida e encerra em si uma simbologia do trabalho, da luta e da condição humana, que muito prestigia quem por ela tem lutado ao longo da vida.
Por isso, lembrar o 25 de Abril, é antes de mais, lembrar e homenagear todos os que lutaram por uma sociedade livre e democrática e também homenagear a nossa memória colectiva.
Comemorar o 1º. de Maio é ter a certeza que em Abril se fez Maio e em Maio se fez história sobre a condição humana e o respeito de todos pela liberdade.
Viva o 25 de Abril.
Viva o 1º. de Maio.

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