Jogue pelo seguro

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

André Cláudio

veterinário

Quando vejo uma notícia acerca de um cão que atacou uma criança, penso sempre nas razões que conduziram ao acidente. Normalmente estão lá, se soubermos o que procurar – e não, o que procuro saber não é se o cão agressor pertence ao grupo das raças actualmente consideradas potencialmente perigosas.
O que procuro – e normalmente encontro – são indicadores ou pistas de que a situação já estava bem sinalizada como perigosa bem antes de o ataque acontecer. O cão, tipicamente é um jovem, macho e não castrado. Também não está, normalmente, devidamente socializado. Normalmente vive num quintal ou canil, com pouca ou nenhuma interacção com pessoas fora da família. Ainda mais comum é que esses animais tenham sido de facto treinados e encorajados a defender o seu território (e a sua família).
“Ele nunca nos causou qualquer problema” é uma resposta comum dos proprietários destes cães, que na realidade não estavam conscientes dos sinais de perigo emitidos pelo seu animal porque em muitos casos ele não será mais do que um ornamento no relvado ou o equivalente vivo a um alarme de ladrões. Talvez alguns proprietários relutantemente admitam que o seu cão até já mordeu algumas vezes – mas “nada sério”. Mais uma vez, sinais ignorados.
Existe algum cão assim na sua vizinhança? Ou no seu quintal? Se for o último caso, fale com o seu veterinário. Peça-lhe conselhos que o ajudem a resolver alguns problemas muitas vezes responsáveis pelo afastamento dos cães em relação à sua família (fazerem necessidades em casa, destruição, etc.). Poderão também trabalhar (muitas vezes com o auxílio de um treinador) em regras de socialização que tornarão o seu animal num membro efectivo da sua família – seguro tanto para a família como para visitantes e/ou estranhos.
Claro que não podemos controlar o que as outras pessoas fazem com os seus animais. É por isso de extrema importância ensinar às nossas crianças como se devem comportar perto de um cão, de modo a evitar ataques.
Todas as crianças (e adultos) devem saber:
• Nunca se aproximar de um cão solto, mesmo que pareça amistoso. Cães confinados em jardins, especialmente os presos a correntes também devem ser evitados (estes cães levam muito a sério a protecção do seu espaço). Se o cão está com o seu proprietário, a criança deve pedir permissão para fazer festas ao animal e começar por oferecer a mão, calmamente, para que o cão a cheire. As festas devem ser feitas no pescoço ou peito – um cão pode interpretar uma festa vinda de cima (ex. na cabeça) como um gesto de dominância. Ensine a sua criança a evitar movimentos rápidos e bruscos perto de um cão, pois podem desencadear comportamentos de predador.
• Ensine as suas crianças a não olhar o cão nos olhos, pois alguns cães mais dominantes vêem o contacto visual directo como um desafio. Correr é uma resposta normal face ao perigo, mas é a pior coisa que se pode fazer com um cão que não se conhece, pois desperta o instinto do animal de perseguir e morder. Muitos cães apenas cheiram e desinteressam-se. Ensine os seus filhos a ficar quietos até o animal ir embora e depois retirar calmamente da área.
• Em caso de ataque, “dê” ao cão um casaco ou uma mochila, ou use algo como uma bicicleta para bloquear o cão. Estas estratégias podem impedir um cão de morder-nos.
• Aja como um tronco se for atacado: cara para baixo, pernas juntas, enrolado como uma bola, com os punhos protegendo a parte de trás do pescoço e os antebraços sobre as orelhas. Esta posição protege áreas vitais do nosso corpo e pode impedir que um ataque se torne fatal. Ensaie estas posições com os seus filhos até que eles as interiorizem, pois podem salvar-lhes a vida.

Sejamos racionais com esta questão: os cães não são o maior risco que as crianças enfrentam no seu crescimento. Os desportos organizados, por exemplo, levam dez vezes mais crianças ao hospital do que os cães. Mas porque arriscar? Você pode proteger o seu filho de uma dentada de cão e vale sempre a pena o tempo despendido a fazê-lo. Muitas vezes o melhor sítio para começar é na sua família, com o seu cão, que precisa de atenção agora.

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