Idos Natais e… Artilheiros do Benfica!

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Napoleão Mira

empresário

Todos os anos, mais ou menos por esta altura, tendo a escrever sobre a quadra que atravessamos. Já o fiz de várias formas, de variados ângulos e abordagens, mas este ano, sobretudo este ano, não me sinto com vontade de pintar de cores celestes o cinzentismo dos dias que atravessamos. Prefiro recuar no tempo, regressar à memória, esse território de conforto de que tantas vezes me socorro.

“Hoje é dia 24 de Dezembro de 1979. Fui pai de novo há poucos meses. Nasceu-me o meu único filho varão, de seu nome Samuel. Tenho 23 anos e sou recepcionista de hotel em Lisboa. Trabalho de noite, regra geral, das onze da noite às oito da manhã, o que quer dizer que conheço melhor a cidade pelas suas sombras, do que pela luz que a tornou famosa.
Hoje, 24 de Dezembro, teimo em afirmar que não gosto do Natal. Há muito que lido com desdém com a data que hoje se assinala. No caminho para o trabalho que faço mais cedo para que o colega que vou render jante com a família, penso na tristeza da noite que terei pela frente.
A cidade, à hora que saio de casa, é uma urbe deserta.
No autocarro que me conduz ao meu destino sou um dos três passageiros. Eu sei para onde vou. Os outros, pelo seu olhar, parecem-me ir para lugar nenhum. Na minha imaginação são apenas dois viajantes solitários dando voltas de autocarro até que este recolha à estação. Encosto a cabeça ao vidro e sinto pela primeira vez uma sensação de vazio. Esboço corações na névoa do vidro provocada pela condensação da minha respiração. Desenho dois, um por cada filho, e penso pela primeira vez que talvez tivesse sido bom ficar em casa junto deles. Um calafrio percorre-me a espinha, obrigando-me instintivamente a correr até ao pescoço o fecho do casaco.
Já no hotel as pessoas rareiam, a vida é quase invisível. Os poucos hóspedes recolhem aos seus aposentos ou demandam casas de amigos.
Como todos os anos, alguns dos meus comparsas, hão de me telefonar. E se aparecerem, com eles repartirei as couves e o bacalhau que me deixaram para a minha solitária consoada.
D. João de Castro, cliente do hotel onde trabalho, tem por mim um carinho especial. Vá-se lá saber porquê, chama-me “Fruta” desde que me conhece. Deixa o carro a trabalhar, entra a correr no hotel e deposita em cima do balcão uma caixa com 12 meias garrafas de vinho tinto do Dão, dois bacalhaus e duas caixas de chocolates.
– “Fruta”, isto é para ti. Feliz Natal para ti e para os teus. – Disse, batendo com a palma da mão na caixa, ao mesmo tempo que desaparecia no breu da noite, quase sem me deixar agradecer o generoso “pai natal” daquele ano de 1979.
César Martins de Oliveira foi o primeiro estrangeiro contratado fora de Portugal para representar o Benfica. Chegou ontem a Lisboa. É a primeira vez que vive fora do Brasil e é também ele um homem só. Admira-se com o silêncio da cidade. Sinto que dele se apodera uma certa melancolia e convido-o a dividir comigo o repasto natalício. Noto-lhe, agradecido, um certo brilho no olhar. Não conhece, por enquanto, ninguém em Lisboa e rejubila com o meu convite.
Somo rapazes da mesma idade (dois dias de diferença!), logo ali criámos uma amizade que há de durar enquanto jogar no Benfica.
Estávamos nós de volta do bacalhau e a descobrir afinidades quando, de repente, toca a campainha.
Espreito. Do outro lado da porta de vidro, um vulto. Um homem alto, vestido de ganga, cabelo e barba compridos, esfrega as mãos ao mesmo tempo que assopra para dentro delas o ar quente que expira. Está fria esta noite de consoada.
Aproximo-me com algum cuidado. A figura do outro lado do vidro não me inspira confiança. Não pode ser cliente. Todos os hóspedes já recolheram aos seus aposentos, excepto o César que reparte comigo a solidão desta noite.
Quando a figura do outro lado do vidro me olha nos olhos, reconheço-a de imediato, abrindo-lhe a porta.
– Vítor Baptista! Entra. O que fazes por aqui? Posso ajudar? – Perguntei curioso e surpreso ao deparar-me com o grande artilheiro do Benfica, que sabia ter caído nos abismos da toxicodependência.
– É pá Napoleão, desculpa lá, até pensei que não me reconhecesses. Estou numa aflição. Estou ali na pensão em frente com uma miúda, não tenho fósforos e não sei onde os conseguir numa noite como esta. Não me arranjas uma caixa? – Implorou envergonhado “o maior”– como se intitulava – , que se notava a olhos vistos estar em franca degradação.
Ainda o convidei a comer connosco. Como recusou, abri a caixa de vinho que me foi ofertada e reparti-a com ele. Arranjei-lhe um saca-rolhas, a tal caixa de fósforos e vi-o atravessar a rua entrando na pensão.
Regressei algo consternado para junto do César. Contei-lhe o percurso do Vítor como jogador. Lembro-me até de lhe ter contado o episódio do último golo que este apontou pelo Benfica em Alvalade, perdendo o brinco ao efectuar o disparo que ditaria o resultado. Ao sentir falta deste, não celebrou o golo e pôs toda a gente à procura de tão dispendioso adereço durante largos minutos, incluindo o árbitro. Disse no final do jogo,} aos jornalistas, que não festejou porque o brinco era mais caro que o prémio de jogo.
Episódio caricato, que César nem queria acreditar.
Só hoje, ao rememorar este episódio natalício, me dei conta do simbolismo dessa consoada de 1979.
“O maior” já mora nas planícies eternas. Ao César perdi-lhe o rasto. Sobro eu e a minha demência escrevendo sobre idos natais e artilheiros do Benfica.

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