Hoje não esperes por mim…

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

António Lúcio

director da Rádio Pax

Já deve passar das oito e meia e são horas de me levantar. É verdade que não tenho grandes coisas para fazer mas também não posso ficar aqui deitada. A casa está mais ou menos arrumada e limpa, só mesmo o jantar dele. Para mim não vale a pena fazer pequeno-almoço ou almoço ou jantar, qualquer coisa serve, estou sozinha, quando a minha filha vivia connosco sempre tinha alguém com quem falar, preparava-lhe o pequeno-almoço, almoço na mesa quando chegava da escola, o jantar, arrumava-lhe a roupa, vivia para ela, e agora, hoje, vivo para quem? Sinto-me vazia, sinto a casa vazia, as mesmas coisas nos mesmos lugares e a casa cada vez mais vazia. No corredor, em cima do aparador, a jarra que a minha mão me ofereceu; na sala, os sofás que já foram brancos e agora cor do fumo dos cigarros dele; a estante, comprada a prestações, paga com o pouco dinheiro que eu ia juntando; na parede um quadro grande com a pintura barata da praia de Monte Gordo; os mesmos prédios na janela do quarto e as mesmas árvores na janela da cozinha; as fotografias, os candeeiros, o espelho, no hall de entrada, onde ele se olha todas as manhãs antes de sair de casa.
– Hoje não venho jantar!
Tudo igualzinho mas a casa cada vez mais vazia, silenciosa, é quase um silêncio vazio. Porque penso eu tudo isto?
– Ouviste o que eu disse?
Trinta e dois anos de casados e nunca disse que me amava ou gostava de mim, nunca passeámos de mãos dadas, nunca fomos ao cinema, os dois, nunca passeámos o cão juntos, nunca foi terno comigo, nunca me deu um beijo. Um beijo beijo. Praticamente não falamos um com o outro, as poucas vezes que fala comigo é para me criticar ou ridicularizar ou, então, para me dizer banalidades. Nunca fui ouvida para decidir seja o que for, sinto-me excluída da minha vida, não valho nada, não presto, sou fraca, trinta e dois anos de casados e ainda tenho medo dele, medo de falar com ele, de olhá-lo nos olhos e dizer o que penso, o que sinto.
– Estás doente, tu?
O que sabe ele de mim? Não me lembro de, alguma vez, me ter tratado pelo nome, foi sempre: anda cá, ouve cá, faz isto, faz aquilo. Será que custa muito dizer o meu nome? Será difícil dizer Ermelinda? É o meu nome e gosto que me tratem pelo meu nome. Será que todos os homens são como ele, não sabem o que uma mulher pensa ou sente? Serão todas as mulheres como eu, infelizes, incompreendidas, excluídas? Quando a minha irmã me pergunta como estou, respondo sempre: Estou bem, obrigada. Mas não estou bem, há muito anos que não estou bem, desde que a minha filha casou e saiu de casa que não estou bem mas digo sempre: Estou bem, obrigada. Sempre menti por causa dele, para o encobrir, porque gostava dele mas, agora, palavra de honra que já estou farta de lhe ouvir a voz, não só a voz, a respiração também, o mastigar, meu Deus, não posso com o mastigar, não quero que ele me toque, nem mesmo com um dedo no ombro, é mais forte do que eu, não consigo, enerva-me.
– Afinal o que se passa contigo?
Sei lá o que se passa comigo, tenho vontade de gritar mas suspiro, gostava que tivesse sido tudo como eu sonhei antes de casar, mas não foi, trinta e dois anos de inferno, sufoco, medo, medo, medo. Nunca trabalhei fora de casa, ele nunca quis, se arranjava o cabelo era uma puta, se comprava alguma roupa era galdéria, se vou à missa é para ver o padre, para ele nunca fiz nada bem feito, a única vez que me senti importante foi quando tive a minha filha.
– O que estás para aí a pensar?
Não me apetece responder. Tenho medo de responder. Apetece-me ficar aqui, a ouvir agora os passos da vizinha de cima e a chuva na persiana do quarto, já deve passar das oito e meia e não me apetece levantar. Apetece-me ficar aqui, quietinha, nesta cama, a pensar, a pensar que vivo num quarto andar e da janela do meu quarto à rua são breves segundos para a liberdade. O que é que me prende, desde que a minha filha se foi embora? Ele? A casa? A jarra que a minha mãe me ofereceu? Os sofás que já foram brancos? A estante comprada a prestações? O quadro grande com a pintura da praia de Monte Gordo?
– Ouve cá, fala comigo!
– Quero o divórcio, Sebastião.

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