Envelhecer em Portugal

Napoleão Mira

Escritor

Hoje resolvi atirar-me para fora de pé (eu que até nem sei nadar!) e falar-vos de um tema que me tem convocado nos últimos tempos. Tanto, que o meu próximo livro terá este tema como fio condutor.
Envelhecer em Portugal é, tantas vezes, uma espécie de exílio em vida.
Exílio da pressa dos filhos, exílio do calendário dos netos, exílio da própria cidade, vila ou aldeia que, no compasso da vertigem da vida atual, já não tem tempo para quem caminha devagar.
Os velhos tornam-se uma sombra: pesam no orçamento, ocupam quartos que podiam ser de turistas, consomem recursos que a juventude imagina destinados a futuros mais radiantes.
Na retórica fria das sociedades materialistas, repete-se o estribilho cruel: sem eles haveria mais espaço, mais casas, mais economia a circular. Só falta justificar a tal injeção atrás da orelha, rápida e indolor, como se a velhice fosse um fardo a ser reciclado.
Mas se olharmos para outras geografias, percebemos o abismo cultural em que caímos. Em África, os velhos são bibliotecas vivas, conselheiros da aldeia, guardiões de histórias que não cabem em nenhum manual. Ali, o tempo vivido acrescenta valor e não o retira. Na Ásia, ainda se dobra o corpo diante dos cabelos brancos; ainda se entende que a velhice não é desperdício, mas coroação de uma vida inteira. O ancião não é um peso, é uma âncora.
Por cá, continuamos a empurrá-los para a penumbra dos lares, como quem guarda móveis antigos numa arrecadação. Esquecemos que cada ruga é um capítulo de resistência, que cada olhar cansado contém batalhas que permitiram a nossa existência.
Envelhecer em Portugal é sobreviver à invisibilidade. É estar presente sem presença, é ser necessário apenas como estatística eleitoral ou como número na fatura da Segurança Social. E, no entanto, se quiséssemos ver, descobriríamos que nos seus silêncios se esconde a sabedoria que falta ao nosso ruído. A velhice não é um empecilho. É um espelho. O problema é que não gostamos do reflexo – ele lembra-nos a nossa própria finitude. Por isso viramos o rosto, por isso inventamos desculpas económicas, por isso sonhamos com sociedades ágeis, sem rugas nem bastões. Mas sem os velhos, o que seríamos?
Apenas órfãos da nossa própria memória.

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