Ditadura das pessoas de bem

Sexta-feira, 22 Janeiro, 2021

Napoleão Mira

Escritor

Quem como eu viveu parte substancial da vida sob o jugo de uma ditadura, tem outro apreço pela Liberdade. Até porque esta não nos foi oferecida de mão beijada, foi sim obtida por homens e mulheres desta terra que empenharam as suas vidas em prol da sua conquista.
Naquela madrugada esperada. Naquele dia inteiro e limpo, como o descreveu Sophia, experimentámos pela primeiríssima vez o aroma desse perfume, do inebriante dessa fragrância desejada e por (quase) todos desconhecida, chamada: LIBERDADE!
Quarenta e poucos anos volvidos, ao mesmo tempo que uma turba fascistóide de energúmenos invade nos Estados Unidos o Capitólio (símbolo da democracia americana) com a intenção de capturar e (quem sabe!) assassinar homens e mulheres livremente eleitos. Entretanto, aqui, no retângulo encalhado entre a Espanha e o oceano, um candidato à Presidência da República reclama para si uma profunda revisão constitucional que, nas suas palavras, nos levaria à fundação da 4ª República e à instauração de uma ditadura de pessoas de bem!
Vivemos tempos de intolerância. As nossas mentes são condicionadas por outra espécie de ditadura: a dos algoritmos.
Na posse desta ferramenta, países, empresas, campanhas políticas e demais manobradores de massas possuem agora guardas pretorianas das mais abjectas ideias, que são um evidente retrocesso civilizacional desde que a mediocridade chegou ao poder nas variadas latitudes, sendo a dos Estados Unidos da América a mais aberrante e, ao mesmo tempo, a mais preocupante.
Aqui, no jardim da Europa à beira-mar plantado, ensaiam-se tomadas de poder, ressuscitando sem pudores os bolorentos valores do fascismo através da tal ditadura de pessoas de bem!
Mas afinal quem são essas pessoas de bem?
Será que as verdadeiras pessoas de bem concordam com ditaduras?
Serão os racistas, xenófobos, homofóbicos ou misóginos pessoas de bem?
O que é certo é que a mediocridade civilizacional também por cá vai ganhando terreno. Um terreno perigoso, lamacento e ignóbil, intencionalmente divisório das conquistas dessa madrugada esperada. Desse dia inteiro e limpo.
Homens e mulheres deste país, está na hora de pintar de vermelho vivo os lábios, como há 45 anos se fez com os cravos vermelhos ao peito, símbolo dessa revolução. Desta vez a revolta vem em forma de igualdade de género e de combate a todas as formas de misogenismo.

O autor utiliza o novo
acordo ortográfico

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