BALANÇO

Sexta-feira, 8 Outubro, 2021

Vitor Encarnação

Escritor

Para além das palavras de ocasião ditas logo na noite das eleições autárquicas, certamente que as estruturas partidárias, nacionais, concelhias e distritais, já terão feito uma análise mais pormenorizada dos resultados obtidos.
Este exercício, em que a honestidade intelectual e a clarividência têm de estar presentes, é fundamental para que os partidos percebam que importância têm no país, numa região e numa determinada comunidade.
Antes de cada eleição, nos períodos mais fervorosos, mais concretamente durante as campanhas eleitorais, os partidos funcionam de uma maneira mais emocional, assumindo que nas suas fileiras estão os melhores e os mais capazes e que por causa dessa alma grande não poderá haver outro resultado que não seja a vitória.
Esta postura prévia à eleição afigura-se-me compreensível e justa. Qualquer projeto tem de ambicionar ganhar, porque se assim não for não farão qualquer sentido o esforço e o empreendimento.
Mas, agora, neste tempo posterior às escolhas, neste tempo em que os eleitores já manifestaram o que queriam e o que não queriam, é altura de cada partido fazer o seu balanço.
E é tempo de, excetuando os abstencionistas, cada cidadão fazer o mesmo.
Eu acho que cada partido, daqueles tradicionais, daqueles que já concorreram muitas vezes, deve fazer estudos comparativos e tentar perceber quando e porquê tiveram determinados resultados, que circunstância política existia, quem eram os candidatos, que tendência se tem verificado de quatro em quatro anos, se a trajetória é ascendente ou descendente. O que são hoje os seus resultados comparativamente ao que foram os resultados anteriores, principalmente os de há quatro anos.
Com exceção daqueles que concorreram pela primeira vez, olhar só para o resultado das últimas eleições pode ser ilusório e perigoso para a consistência da estrutura política.
Ter ganho, mas ter perdido centenas de votos, ter perdido vereadores, ter menos membros eleitos nas assembleias municipais ou de freguesia, define uma tendência que pode ser momentânea, recuperável, circunstancial, mas que não deixa de ser uma tendência. Terá sido por causa do partido que representam? Dever-se-á às pessoas que deram rosto ao projeto que não foram suficientemente inspiradoras? Terão sido as políticas que ficaram aquém do prometido e do esperado? Será motivado pelo desgaste e pela vontade de mudança intrínseca ao ser humano? Terá o discurso sido menos eficaz? Que peso político e que aceitação comunitária ainda têm? É suficiente para aguentar por quanto tempo? Irão um dia perder as eleições por culpa própria?
Do outro lado, do lado de quem não ganhou, olha-se para tal facto e fazem-se contas. Tenta-se perceber a flutuação, tenta-se adivinhar quem mudou de opinião e as razões que suportam essa mudança. Noutra perspetiva, pergunta-se quase o mesmo: Terá sido por causa do partido que representam que os resultados não foram os pretendidos? Serão as pessoas que corporizaram o projeto que não têm suficiente carisma? Terão sido as promessas que não foram suficientes? Ainda não há verdadeiro desgaste e uma efetiva vontade de mudança? Terá o discurso sido ineficaz? Que peso político e que aceitação comunitária já têm? Quanto tempo vão ter de esperar até ganharem? Serão capazes de um dia ganhar as eleições por mérito próprio?
Se mesmo aqueles que reforçaram a sua votação não devem seguir a via da sobranceria e do desleixo, os que ganharam reduzindo a sua votação não poderão nunca dar-se a esse luxo, sob pena de a alternativa estar mais próxima do que parece.
Há duas coisas que os que perderam não podem fazer. Uma delas é a vitimização. A outra, absolutamente a evitar, é culpar os eleitores pelos resultados menos bons que obtiveram. Atribuir as culpas a um deficiente julgamento e uma má escolha por parte dos eleitores pode ser contraproducente. Se junto dos seus defensores essa postura de pôr em causa a inteligência e o livre arbítrio dos cidadãos reúne consenso, isso afasta muitos daqueles que poderiam no futuro apoiar a alternativa e fortalecer o número de votos necessários a uma mudança.
Assente numa experiência de vários anos, posso afirmar que as oposições têm tendência a desmontar a sua organização logo após as eleições. Há quase sempre uma desmobilização nos tempos a seguir às derrotas eleitorais.
Todos sabemos, mesmo os que não estão ativamente na política partidária, que uma coisa é juntar um conjunto de homens e mulheres em torno de uma causa e fazer com que, durante um mês, movidos a adrenalina e a emoções, eles defendam uma causa, expressa pelo mediatismo das redes sociais, pelo colorido das bandeiras, pela música do hino partidário e pelas buzinas. Outra coisa é fazer uma travessia do deserto, sem voto em matérias que façam a diferença, sempre a perder votações, sempre em minoria, raramente fazendo valer as suas ideias, mas sabendo e querendo exercer responsavelmente, de uma forma nobre, sistemática e contínua, a democracia onde ela de facto deve ser exercida.
Quem ganhou as eleições só precisa de fazer uma manutenção de expetativas. Quem as perdeu precisa de trabalhar muito mais.
É por isso que fazer oposição é muito mais difícil do que estar no poder e essa árdua tarefa só pode ser executada por homens e mulheres com alma grande e que estejam ativos durante quatro anos.
Por detrás de um bom exercício de poder deverá estar sempre uma boa oposição. A oposição é, desde que criteriosa e atenta, fundamental para que o poder não perca a noção da realidade.
Qualquer poder que não sinta o escrutínio da oposição é um poder que, mais cedo ou mais tarde, de forma mais elaborada ou mais rude, por vertigem ou devaneio, vai falhar relativamente aos compromissos que acordou com os seus concidadãos. E é por isso que é fundamental que o poder seja competente e que a oposição seja eficiente.
Quando a eficiência fiscaliza a competência, isso significa uma mais-valia para a comunidade.
Quando é bem feita, a oposição é o poder que mais assusta o poder.

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