Há apenas uma porta entre nós.
Sei que chegou a minha hora, sei que me vais roubar o meu tempo para sempre. Primeiro roubaste-me os anos, depois os meses, depois os dias e as noites, até eu já não ter nada meu, até eu já não ser eu. Restam-me agora os minutos que faltam até abrires a porta. Restam-me os segundos que levares a disparar a caçadeira. É irónico que seja o quarto onde nos amámos e fizemos os filhos o lugar onde eu vou morrer. Às tuas mãos.
As tuas mãos. Eram lindas as tuas mãos à procura dos meus braços, do meu rosto, de toda a minha pele. E eu dava-te tudo o que tinha. No escuro do carro, dizias-me que me amavas, que não podias viver sem mim, que eu era a mulher da tua vida, a mãe dos teus futuros filhos. Falávamos muito, como falam os apaixonados. Falávamos do casamento, da lua-de-mel, da casa, do carro, dos filhos, dos cães. E os nossos olhos brilhavam enquanto olhávamos a lua.
Mas o tempo foi passando. O tempo fez das tuas mãos um hábito e da minha pele apenas um invólucro. Depois fumavas um cigarro e eu queria falar, mas tu dizias que precisavas de silêncio. Eu dava-te o silêncio e pedia-te apenas as tuas mãos. Mas tu já não mas davas. Dizias que precisavas delas para conduzir e aceleravas tanto que eu deixava de conseguir ver a lua.
Aos poucos fui ficando tua, a tua gaja, como dizias aos teus amigos. O hábito tem um departamento obscuro onde se faz o registo de propriedade das pessoas. E eu desculpava-te. Dizia a mim própria que era da idade, que havias de amadurecer, que eu seria capaz de te mudar. O amor vence tudo.
A minha mãe nunca gostou de ti. Dizia que lhe fazias lembrar o meu avô paterno.
— Mãe, não diga isso. Os tempos mudaram. Hoje os homens respeitam mais as mulheres.
Ela sorria com tristeza.
— Minha filha, essas coisas não valem nada entre quatro paredes. Depois vêm os filhos, vem a vergonha, vem o sofrimento em silêncio. Não parece, mas esta é uma rua de mulheres tristes. A vida reservou às mulheres um lugar muito pequeno no mundo.
Eu respondia-lhe que agora era diferente, que havia divórcio, que as mulheres tinham direitos, que ninguém morria por ser filho de pais separados.
— A história demora a virar as páginas — dizia ela. — Uma coisa é aquilo que se deseja, outra é aquilo que acontece dentro de casa.
Eu insistia. Dizia-lhe que tinha estudado, que conhecia as filosofias e as psicologias, que tivera educação para a cidadania, que não me deixaria enganar.
— Ainda bem que sabes essas coisas todas — respondia a minha mãe. — Mas não te esqueças de que as sementes da tradição continuam muito fortes. O pior de tudo são as quatro paredes fechadas. É aí que o amor morre e um bicho nasce.
Eu não queria acreditar. Também havia homens bons. O meu homem era bom. Nunca me levantara a mão, nunca me envergonhara. Eu apenas precisava de uma profissão, do meu dinheiro, da minha independência. Homens havia muitos.
Mas não era verdade. Para mim só havia aquele homem. E isso aterrorizava-me, porque começava a perceber que talvez a minha mãe tivesse razão. No entanto, as tuas mãos continuavam a parecer-me lindas.
Sempre foste homem de poucas palavras. Durante muito tempo pensei que o silêncio era uma forma de harmonia, uma maneira de existirmos sem nos ferirmos. Mas comecei a precisar de palavras. Precisava de te ouvir para confirmar que tu ainda existias, que eu ainda existia, que nós ainda existíamos.
Pedi-te a tua voz. Pedi-te que falasses comigo. Disse-te que o amor servia para nos entendermos. Mas quando quebravas o silêncio era aos gritos. Aos gritos de quem está farto, de quem não quer ali estar. E eu pedia-te que não gritasses, e tu gritavas que eu nunca sabia o que queria, que primeiro não queria silêncio e agora queria silêncio outra vez. Que as mulheres eram todas iguais.
As sementes da tradição continuavam muito fortes.
Eu disse-te, com sal nos olhos, que só queria palavras. Um diálogo. Uma vez tu, outra vez eu. Mas tu voltaste a mergulhar no silêncio. E como o silêncio era demasiado fundo, eu saí para não me afogar.
Talvez devesse ter ouvido a minha mãe. Talvez devesse ter admitido que tu eras um daqueles homens de quem ela falava e eu uma daquelas mulheres. Mas eu não podia reconhecer que tinha falhado no amor da minha vida. Limitei-me a chorar.
Depois, um dia, disseste-me três palavras:
— Quero casar contigo.
Não me perguntaste se eu queria. Disseste-o com um ramo de flores nas mãos. As tuas mãos. E eu não consegui dizer que não. Talvez a paixão regressasse. Talvez o teu machismo enfraquecesse. Talvez me voltasses a levar à lua.
Mas limitámo-nos a montar casa. Fomos viver para uma rua nova, uma rua onde ainda não morava mais ninguém. Assim eu podia dizer à minha mãe que, na minha rua, não havia mulheres tristes.
— E tu, minha filha, és triste?
— Não, mãe. Já não vou à lua, mas não sou triste.
Deixei de esperar por ti. Comecei a tomar comprimidos para adormecer antes de chegares a casa. Queria que chegasses cansado, bêbado ou saciado. O teu corpo começou a causar-me repulsa. Apesar disso, quis ser mãe. Quis ser mãe para recuperar a minha função de mulher, para voltar a ter quem me desse as mãos, para amar e ser amada.
Engravidei três vezes, embora só tivéssemos dois filhos. Uma das vezes tu nem sequer soubeste. Nem sei se te lembras de me teres empurrado pelas escadas abaixo.
Inventei um sorriso. Colocava-o no rosto antes de sair de casa, como quem coloca um alfinete de peito. Quem me visse nunca diria que eu era infeliz. Usava-o sempre diante dos filhos e só o tirava quando entrava no quarto.
Agora ouço os teus gritos do outro lado da porta. Esperaste que os filhos fossem para a escola. Nunca gostaste de lhes mostrar o teu lado negro. Talvez estejam a ter educação para a cidadania. Talvez estejam a aprender a igualdade, os direitos humanos, a violência doméstica. Talvez estejam a estudar estatísticas sobre mulheres assassinadas pelos maridos.
Eu já não consigo gritar. Vou ficar em silêncio. Este silêncio será o prenúncio de todo o silêncio.
Perdi a mão para o sal. Ganhei celulite. Errei o sabor dos melões. Assei demasiado a carne. Engomei mal a camisa. Não te fiz coisas como nos filmes. Bati com o carro. Gastei demasiado dinheiro nas compras. Comecei a ficar mal de saias. Descaiu-me o peito. Esqueci-me dos guardanapos. Deixei arrefecer a sopa. Não te comprei vinho. Atrasei-me para fazer o jantar. A tua equipa perdeu e tu ficaste de mau humor. Nem foi preciso eu dizer nada para me ofenderes, para ofenderes a minha mãe e todas as mulheres do mundo. Nem foi preciso eu pedir calma para me bateres e dizeres que eu não prestava para nada.
E talvez não prestasse mesmo. Porque, se prestasse, já te teria deixado.
Mas como partir e levar os filhos? Eles gostam de ti. Tu nunca lhes mostraste o teu lado negro. E eu nunca lhes falei mal do pai.
Perdi o sorriso. Os nossos filhos deram por isso. E eu fiz-me de espantada.
— Que cabeça a minha. Não sei onde pus o sorriso. A mãe logo o encontra.
Não lhes disse que ele já não estava dentro de mim. As mães têm de ter sorrisos para dar aos filhos. Uma mãe sem sorrisos ainda não morreu, mas já deixou filhos órfãos.
Já pouco saio. Fechei-me dentro de mim. Acorrentei-me à cozinha, à sala, à televisão, aos trabalhos de casa dos filhos, às tuas camisas, às telenovelas, ao cansaço, ao desalento.
Já usei as prendas que me deste. Que me deste é uma força de expressão. Deste à casa. Um aspirador não se oferece por amor. Nem uma torradeira. Nem uma batedeira. Quem ama oferece aquilo que completa a pessoa, não aquilo que completa a cozinha.
A porta há de rebentar com os teus pontapés. Não falta muito. Em breve deixarei de inventar sorrisos. Já não terei tempo para pedir desculpa à minha mãe e dizer-lhe que ela tinha razão.
Percebo agora que foste sempre o dono da gaiola onde vivi. Tentei fazer a comida como a tua mãe fazia, tentei ser tudo aquilo que esperavas. E tu vais agora ser o meu carrasco.
Que mal te fiz eu para merecer a morte?
Talvez o mal de te amar.
Há homens que não gostam de ser amados. O amor é um espelho. Desmonta a raiva, a brutalidade, a mágoa. Torna-nos transparentes. E foi isso que sempre receaste: que te vissem por dentro, que descobrissem esse mundo mal resolvido que trazias contigo.
A porta está a ceder.
A caçadeira tem dois cartuchos. Um será para mim. O outro, imagino eu, será para te matares a seguir.

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