A propósito do “Maio de 68”

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Carlos Monteverde

Desloquei-me recentemente à Suécia em viagem de âmbito profissional. Levei para ler no avião um magnífico suplemento sobre o “Maio de 68”, publicado pela revista “Visão” há poucas semanas. E é curioso relembrar a fragilidade ideológica do jovem Cohn Benedit, baseada em motivações sexuais, mal rebatidas por um ministro desastrado do Governo francês da altura, que motivaram os primeiros confrontos de rua entre a polícia e estudantes, a que rapidamente aderiu a extrema esquerda francesa e não aderiu o PCF. De repente, os motins alastraram e, sem ideologia de retaguarda, os filhos estudantes punham em causa os pais governantes, dizendo-lhes que era “proibido proibir”. Encavalitavam-se de dia nas costas uns dos outros com a bandeira do Vietname a esvoaçar, captando simpatias fáceis e fotos que fizeram história, não havendo registos da revolução à noite.
Os incidentes não fizeram eco noutros países, pese embora a crise de 69 em Portugal, os Woodstocks e Vilar de Mouros, onde algumas raparigas e rapazes tomavam banho nus, nos riachos locais.
Os “Conh Benedit” da Europa e os nossos “Durões Barrosos” cedo largaram os megafones das manif’s, estagiaram com as famílias Bulhosas da Europa e lá estão no Parlamento Europeu e nas grandes empresas europeias. Falam agora como falavam. Sobre o desemprego e os desprotegidos. As assimetrias sociais. O paleio repetido de sempre. Dantes de megafone. Agora de microfone na lapela. Dantes verberando o capitalismo. Agora defendendo a livre iniciativa privada. Dantes como patuscos afilhados. Agora como poderosos padrinhos.
E são cada vez mais as juventudes partidárias as únicas faculdades modernas que proporcionam emprego garantido no difícil mercado de trabalho…
Lido o “Maio de 68”, aterrei em Estocolmo, capital da Suécia, uma cidade bonita e constituída por 14 ilhas, onde não se vêm os prédios altos das cidades americanas ou das grandes cidades europeias. Aliás, fazem-se os 40 quilómetros do aeroporto a Estocolmo numa estrada razoável, mas que não é auto-estrada. Nenhum dos países nórdicos tem os quilómetros de autoestrada que tem Portugal. Talvez por não terem lá a Teixeira Duarte ou a Mota-Engil…
Não vi na Suécia um único pobre estendido nos passeios, nem arrumadores de carros, nem aqueles artistas que fazem de estátuas ou outras palhaçadas muito bem feitas, que permitem ganhar a vida sem trabalhar. Não vi nenhum estádio de futebol tão bonito, tão grande, tão luxuoso ou tão inútil como os nossos dez estádios do “Europeu”. Não vi na Suécia nenhum seleccionador de futebol a anunciar na abertura dos telejornais os nomes dos futebolistas eleitos para um campeonato qualquer. E também me disseram que na Suécia não há pessoas singulares ou colectivas a fugir aos impostos, porque estes são, de facto aplicados, na segurança social dos suecos, na sua educação e na sua saúde. E também me disseram que a assimetria salarial na Suécia é em média de um para três, enquanto em Portugal é superior a um para oitenta.
Vi muito menos luxos na Suécia do que em Portugal, onde curiosamente vivemos bem pior. Vi poucas revistas do social e poucos jornais desportivos. Não há relevância na Suécia para Pintos da Costa ou Lilis Caneças. Existem pessoas calmas e educadas que tornam inimaginável o assassínio do Presidente Olof Palme.
Na viagem de regresso a Portugal, dei comigo a pensar se será difícil copiar o esquema social, político e organizacional da Suécia. Tal como a maioria dos portugueses, estou farto de ver os nossos “melhores” economistas a debitar na televisão a sua sapiência sobre a resolução do desemprego, a balança de pagamentos e o défice externo. Todos eles, aliás, com o seu problema resolvido, através de chorudos ordenados em várias empresas, a que se juntam algumas reformas dada a sua provecta idade. Talvez fosse melhor para os portugueses que alguém fosse aos países nórdicos buscar não só o “Simplex”, mas o “Tudex” do seu tecido social e económico.
Esperemos que o habitual palavreado oco dos nossos políticos possa evoluir para o pragmatismo de tentar construir entre nós, aquela que será, porventura, a melhor solução social e política construída em países modernos.

<b>P.S. – </b>Em Beja, e no campo da saúde, a última polémica é a falta de médicos para os carros do INEM. Morreram algumas ideologias caducas, mas os seus departamentos de agitação e propaganda, que ainda mexem, teimam em caminhar para o mesmo fim, alarmando as populações, fazendo demagogia barata e, acima de tudo, falando do que não sabem. Há alguns meses, morreu em Odemira um doente por provável doença do coração. Como acontece todos os dias nos mais diferentes locais do mundo. Mas para a nossa imprensa sensacionalista, tinha de lá estar, num abrir e fechar de olhos, uma ambulância medicalizada. E o ministro Correia de Campos foi no logro de prometer de imediato a cobertura pelo INEM de todo o território nacional, como falsa solução. Esquecendo que a defesa da saúde das populações começa na organização e capacidade de resposta dos hospitais, quer em equipamento técnico capaz quer em preenchimento dos seus quadros médicos e de enfermagem. A chamada defesa do Serviço Nacional de Saúde e das carreiras médicas, que o ministro descurou. A organização dos cuidados ambulatórios é subsequente e, enquanto não há médicos e enfermeiros suficientes, esses cuidados terão de ser feitos, a exemplo de outros países, por pessoal paramédico, preparado para o efeito. Não havendo médicos suficientes, não se podem fazer omoletes sem ovos, não se podem fazer falsas promessas. E é fundamental pôr a casa em ordem. É assim que se servem as populações e é isso que a actual administração do CHBA está a fazer. Quanto a mim correctamente. Num momento em que a falta de médicos no distrito se pode agravar e em que a culpa vem certamente de trás, a primazia é assegurar o funcionamento da Urgência do Hospital, das suas unidades de ponta e do internamento. Servir a população do distrito é salvaguardar isto. A disponibilidade restante, pode, a curto-prazo, não assegurar o ambulatório como seria desejável. Fazer demagogia sobre isto é prestar um mau serviço à comunidade. Mais importante que a agitação e propaganda, é a seriedade das nossas intervenções. Sendo que têm de ser tão responsáveis os que tomam as decisões, como aqueles que têm naturalmente o direito de criticar.

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